Este post é uma provocação...
Naturalmente que não pretende ofender ninguém, mas tem a clara intenção de criticar as decisões que se arriscam a criar uma situação negativa para todos os orquidófilos portugueses e para a orquidofilia em geral no nosso País.
Poderá parecer estranho (ou censurável) que um neófito venha pôr em causa o status quo e, por isso, quero esclarecer uns quantos pontos que ajudarão a compreender a minha posição.
Recomecei a criar orquídeas há poucos meses.
A palavra fundamental é "recomecei". Tive uma colecção bem simpática (para a época) no fim dos anos 70 e 80. Não sou um absoluto principiante, e, na minha opinião, até os pontos de vista dos principiantes merecem atenção: é de entre os principiantes de hoje que sairão os orquidófilos experientes de amanhã, e, se não tivermos atenção às necessidades que sentem perderemos a capacidade de atrair mais gente para esta actividade.
É evidente que vos quero expôr as minhas reflexões sobre o actual panorama das reuniões/feiras internacionais de orquídeas em Portugal.
Vamos a isso!
O que é importante para a Orquidofilia
Divulgação
É muito importante que a orquidofilia, como hobby, seja divulgada. Muitas pessoas se poderiam juntar a nós se tivessem conhecimento de como é fácil (vá lá: razoavelmente fácil...) criar orquídeas em quase quaisquer condições.Informação
Os orquidófilos precisam de estrutras onde possam trocar informações. É assim que todos nós progredimos: é indispensável ler, mas nem todos os livros e sites têm a mesma utilidade, e um confrade que nos aconselhe um bom livro faz-nos um grande serviço!Para além de ler, o contacto directo com quem já tem experiência é precioso para os nossos sucesso e evolução como orquidófilos: é no contacto directo que se aprendem aquelas coisas que nenhum livro é capaz de explicar, desde as técnicas que se aplicam às nossas condições locais de cultivo, até aos próprios "trabalhos manuais" envolvidos.
Disponibilização
Para além da troca de informações um orquidófilo precisa de uma outra coisa: ...isso! Orquídeas!E onde as conseguir?
Disponibilidade de orquídeas em Portugal
Diz-se que é a procura que gera a oferta e eu juraria por este princípio antes de começar a trabalhar. No entanto, trinta anos de marketing operacional e estratégico deixaram-me algumas dúvidas.
Quando comecei nestas coisas das orquídeas todos tínhamos as mesmas plantas: vinham todas (ou quase) da Madeira (muitas carregadinhas de vírus) e resumiam-se a meia dúzia de "Paphs" (espécies e híbridos primários), híbridos de Cymbidium com mais de cinquenta anos de feitos, meio ranhosos e sempre filhos de pai e mãe incógnitos, Sobralias, Stanhopea "wardii", Phragmipedium caudatum e Grande e chega.
As plantas não se vendiam: traficavam-se! Poucos anos após a revolução, a maior parte das pessoas ainda viajava pouco, e, tirando os safaris a Badajoz para comprar Coca-cola, caramelos e pyrex, ia-se com mais facilidade a Londres que ao Funchal.
Os orquidófilos eram muito poucos, mas, nestas condições, como se poderia esperar que fossem muitos? Ninguém procura o que não sabe que existe...
As orquídeas da feira
Hoje não é assim! Vendem-se orquídeas nos supermercados, nas feiras, nas praças e nas floristas mais escondidas. Bem bonitas, bem boas e bem baratas.É verdade que a orquidofilia perdeu uma grande parte do glamour que então tinha: não há hoje ninguém que vá a minha casa e que não diga: Ah! Orquídeas! Também tenho umas lá em casa...
É entre este (agora) enorme grupo de gente que vão surgir aqueles que se vão interessar mais e mais pelas orquídeas, procurar informação sobre elas e, gradualmente, procurar as que não se vendem na feira: são os orquidófilos do futuro.
As compras na net
A internet é um fenómeno recente e é possível que alguns de nós ainda não se sintam à vontade com este meio para fazer as nossas compras, mas não há nada de novo debaixo dos céus: antes da net havia a compra pelo correio...O AOS Bulletin tinha (à maneira Americana) todos os anúncios concentrados num único bloco de páginas (eram as primeiras que eu lia!). Qualquer viveirista no estrangeiro publicava um catálogo anual (e às vezes Newsletters) que enviava a todos os clientes antigos.
O processo era "simples":
- arranjar forma de receber os catálogos
- escolher o que se queria
- pedir ao fornecedor uma factura pro-forma
- com essa, ir ao banco e pedir um cheque em moeda estrangeira
- enviar o cheque ao fornecedor
- esperar...
- esperar...
- esperar...
- ir aos Correios, onde a encomenda era aberta a golpes de canivete, e tentar convencê-los que as plantas não eram para comércio
- se o total da encomenda ultrapassasse um determinado valor era preciso pagar a um Despachante Oficial para tratar das coisas com a Alfândega
- Pagar as taxas aduaneiras que eram decididas "a olho" pelo funcionário da dita
- Rezar no caminho para casa para que as plantas ainda estivessem vivas e recuperáveis.
Levava meses...
enfim... those were the days!
As compras à distância sempre existiram, mas poder ver a planta que se está a comprar é outra coisa!
A importância dos comerciantes especialistas nacionais
Curiosamente sempre gastei mais quando ia ao estrangeiro e visitava um produtor do que nas compras pelo correio: é que na estufa eu VIA realmente as plantas, tocava-lhes, cheirava-as, sei lá...Em Portugal não podia fazer o mesmo.
Hoje posso!
O contacto directo com o vendedor é precioso: ele dá-nos informações sobre o que pretendemos comprar que não é fácil conseguir pela net. Desde logo porque um comerciante em Portugal tem tempo para nos perguntar em que condições podemos ter as plantas e sabe como aquela planta específica se comporta nas nossas condições. O fornecedor estrangeiro sabe o que é necessário fazer na Holanda, ou Alemanha, ou Inglaterra...
É verdade que nenhum comerciante em Portugal consegue ter a variedade de oferta dos grandes potentados alemães ou holandeses, mas cá nós vemos realmente o que pretendemos comprar: não há surpresas a abrir a caixa (mas onde raio é que isto é flowering size???).
Os comerciantes internacionais
Pois, que inveja... morar na Alemanha, na Holanda, em Inglaterra e poder ir a um viveirista com centenas ou milhares de orquídeas como quem vai ao café...
Mas temos uma oportunidade nas exposições realizadas em Portugal e que conseguem atrair viveiristas estrangeiros!
Porque será que eles cá vêm?
Porque alguém na organização das exposições, com grande mérito (e esforço), os "melgou" até aceitarem vir, e por uma outra razão mais de pormenor:
o dinheiro...
o dinheiro...
Os seus custos de participação são superiores aos dos comerciantes nacionais e, além da sua margem de lucro normal, as vendas que eles esperam obter têm que os pagar: viagem, estadia, aluguer do espaço.
Se as vendas correrem bem, voltam; se não: Adeus!
A participação de comerciantes internacionais tem várias vantagens:
Torna mais fácil divulgar o evento nos meios de comunicação, mobiliza-nos mais pela esperança de nos conseguirmos ver livres de mais uns Euros, dá-nos a todos acesso a espécies ou híbridos mais raros (ou mesmo inexistentes) nos comerciantes e colecções nacionais, e permite até aos comerciantes nacionais adquirir plantas que antes não tinham e que, depois de propagadas, irão gerar vendas no futuro.
Os Clubes
Em Portugal existem dois clubes (que eu saiba).
Por si só, este facto não me preocupa. Até acho saudável, como acharia que houvessem grupos de interesses especiais (por exemplo de orquídeas terrestres, Catasetinae, miniaturas, orquídeas "frias", etc.) desde que fossem grupos "sérios": só para dizermos uns aos outros que as plantas são lindas, fofas, etc. não me parece que valha a pena.
Na minha opinião a existência de vários clubes não é um problema per se. Mas não digo o mesmo quanto às suas políticas...
Considero que o trabalho feito pelos clubes (e grupos da net) nos campos da Divulgação e Informação é globalmente bom ou muito bom. Já quanto à sua influência na Disponibilização de orquídeas, a situação parece-me diferente.
Mas analisemos a situação actual:
Mas analisemos a situação actual:
A situação actual
- As exposições são organizadas pelos clubes de orquidofilia
- Nos últimos poucos anos tem-se verificado uma redução do número de entradas nas exposições.
- Não houve uma redução do número de exposições.
As consequências a esperar
Em trinta anos de vida profissional colaborei (ou liderei) na organização de dezenas de congressos, simpósios e reuniões de vários tipos, alguns com centenas ou milhares de participantes; enquanto gestor em empresas expositoras, analisei e decidi em cada ano a participação (ou não...) em dúzias de congressos, simpósios e reuniões.
Conheço o mercado e os vendedores internacionais; um amigo próximo é "dealer" internacional de objectos de colecção e desloca-se todos os anos a várias reuniões quer na Europa quer nos EUA. Tem o seu "programa de festas" e vai a umas exposições, mas não a outras. As nossas conversas são, frequentemente, sobre os prós e contras da sua participação nesta ou naquela exposição. Conheço o ponto de vista de quem vende, e, bem vistas as coisas, não é difícil de compreender.
A crise económica nos países desenvolvidos reduziu muito as vendas dos comerciantes de bens que não são de primeira necessidade (para as pessoas normais), e a actual situação das exposições no nosso País parece ameaçar uma espiral viciosa:
- Menos assistência > menos vendas para os comerciantes
- Menos vendas > menos comerciantes estrangeiros a voltar
- Menos estrangeiros > menos assistência
- e por aí adiante.
Proposta de estratégia
Esta envolve os clubes.Em vez de promover a proliferação de pequenas exposições, cada vez com menos capacidade de atrair comerciantes, quer estrangeiros, quer nacionais, têm que conjugar esforços e, para além de inciativas de âmbito local ou regional, promover apenas uma ou duas exposições realmente internacionais ao longo do ano, ambas envolvendo os dois clubes.
Deverão, naturalmente, manter a sua individualidade, e as características que os distinguem, mas, nesta situação, não há espaço para penis envy: apenas o empenhamento simultâneo de ambos os clubes garantirá grandes exposições, com tendência para crescer e capacidade para se imporem no calendário de viagens dos comerciantes internacionais.
Todos os Orquidófilos inscritos em qualquer dos clubes (e quantos estão em ambos?) têm o direito de exigir isto aos seus dirigentes eleitos.
Dirigentes eleitos, repito.
Esses dirigentes terão que ser capazes de pôr de lado conflitos de ego e diferenças de opinião e trabalhar conjuntamente neste ponto a favor da Orquidofilia em Portugal.
Mau serviço prestarão se não o conseguirem.
Os associados dos clubes terão, igualmente, de esquecer as razões, normalmente irrelevantes ou mesmo infantis, que os levaram a afastar-se de uns e aproximar-se de outros.
Não pode haver a exposição "deles" e a "minha" exposição.
Não há alternativa...
Já agora, permitam-me uma farpa em jeito de despedida: pôr os comerciantes internacionais ao relento e os nacionais a coberto numa exposição que se realiza em época em que é provável que chova, parece-vos uma boa maneira de dizer aos estrangeiros que queremos que eles voltem?
Porque queremos! ...ou não?

