Sunday, January 10, 2021

Um ano rico em livros

Os Paphiopedilum são um dos mais populares grupos de orquídeas, e muito se tem escrito sobre eles. Desde o trabalho fundamental de Karasawa e Saito logo no início da década de 1980, tanto Phillip Cribb, Pat Cash e Harold Koopowitz, como Guido Braem e William Cavestro publicaram monografias sobre o género (por vezes com segundas e mesmo terceiras edições revistas e actualizadas), e Leonid Averyanov publicou um excelente volume sobre os Paphiopedilum do Vietnam. São livros bastante diferentes quer em organização quer em valor científico, mas todos eles são úteis para um entusiasta. Enquanto amante destas orquídeas, e apesar de preferir a abordagem sistemática e taxonómica de Braem, que adoptei para a minha colecção, não perco uma oportunidade de me informar sobre as opiniões de outros autores e tenho vindo a adquirir os novos livros que vão sendo publicados.

Eis que chega mais um: Olaf Gruß cedo se interessou pelos Paphiopedilum e desde há muito os observa na Natureza. Para além de muitos artigos em revistas especializadas, tinha já publicado um livro sobre formas albinas neste género, outro sobre híbridos de P. rotschildanum, e apresenta agora o primeiro de uma série monográfica de três volumes sobre o Género Paphiopedilum.


              Paphiopedilum - Sudöstasiatische Frauenschuhe (Band 1)





Não é um tratado de sistemática

É de salientar que este não é um livro sobre taxonomia ou sistemática, e a classificação utilizada é, como sempre, passível de críticas.

Para muitos botânicos (entre os quais me incluo) a utilização alargada de nomes latinos ou latinizados para categorias subespecíficas (variedade, forma) é questionável sob o ponto de vista taxonómico, dado o nosso reduzido conhecimento das áreas de distribuição e da variabilidade natural de cada espécie no seu habitat natural.

O botânico por formação sabe que há variabilidade natural dentro de cada espécie, e que, dentro de certos limites que são típicos de cada espécie, aparecerão indivíduos com maiores ou menores dimensões, tépalas mais curtas ou mais longas, côres ou padrões mais fortes ou mais ténues, etc. Mais: o botânico sabe que o que nós observamos são os caracteres visíveis (fenotípicos), que resultam da expressão do genoma da planta, mas que essa expressão é regulada por uma grande variedade de factores, muitos deles relacionados com o ambiente (factores quer epigenéticos, quer ambientais). Se esses factores mudarem, mudam os caracteres que nós observamos. A mesma planta (não apenas a mesma espécie: o mesmo indivíduo) cultivada no Porto ou no Funchal poderá dar flores diferentes, folhas mais ou menos longas, etc.

Ora se não chamamos Homo sapiens var. brasiliensis aos sul-americanos, e ninguém até agora descreveu o Homo sapiens f. brad-pittius, será que vale a pena estar a criar nomes para cada variação que vemos num Paphiopedilum?

Para um botânico, claro que não, mas, para um coleccionador, claro que sim!

O coleccionador a sério não quer ter um Paphiopedilum insigne. Quer um “daqueles” com as pintas fininhas, outro “daqueles” com as pintas grossas, com muitas pintas, com poucas pintas, mais verde, mais amarelo, e, já agora, um como o do Senhor Alberto, que é tão bonito… Claro que, se cada uma dessas variações tiver um nome, as coisas tornam-se mais simples e as colecções mais fáceis de organizar.

Os comerciantes perceberam isto há muito, e são os grandes responsáveis pela multiplicação de sinónimos e espécies, subespécies, variedades e formas espúrias ou duvidosas, com que atraem os coleccionadores mais fanáticos. 

 

Um livro muito útil

O livro de Olaf Gruß é um livro voltado para os coleccionadores e cultivadores do Género. Trata como válidas “espécies“ ainda muito pouco conhecidas e utiliza muitas categorias taxonómicas infraespecíficas. Penso que, apesar de isso poder ser visto como um defeito por um botânico por formação, para muitos coleccionadores será um dos seus grandes atractivos, por “dar nome” a variantes que ainda não obtiveram o reconhecimento de alguns outros autores.

Quanto a Gruß, à medida que se fôr acumulando conhecimento sobre algumas destas populações ainda pouco compreendidas, algumas das suas opções virão a ser confirmadas, e, possivelmente, outras virão a ser negadas, como acontece com as opiniões de qualquer autor.

Ao contrário das monografias anteriores, este livro não pretende apenas descrever as espécies, mas também lista os híbridos primários envolvendo cada espécie, ilustrando alguns deles. É uma inovação que pode tornar este novo livro muito útil, mas, que, naturalmente, também levanta algumas questões: porque é que são ilustrados alguns híbridos e não outros? Penso que a resposta é simples: muitos híbridos primários foram feitos e registados por amadores, que produziram poucas plantas de que poucas ou nenhuma sobreviveram. Em alguns (muitos) destes casos é muito difícil, ou mesmo impossível, encontrar fotografias fidedignas.

Em contacto directo, o Autor disse-me que o terceiro volume será dedicado aos híbridos. Espero-o com impaciência!


Organização

Este primeiro volume está organizado de uma forma que podemos considerar "tradicional":

Ao prefácio e agradecimentos segue-se uma série de capítulos que tratam da história do Género, da sua distribuição geográfica e da localização das diferentes espécies e uma discussão da morfologia dos Paphiopedilum. Segue-se-lhes uma história da nomeclatura do género ao longo do tempo e algumas regras de nomenclatura que muito ajudam a compreender o processo e a razão pela qual há tantas controvérsias.

Esta secção, que podemos designar de "introdutória" termina com um capítulo sobre o cultivo de Paphiopedilum




O resto deste primeiro volume é um tratamento, espécie por espécie, das espécies de Paphiopedilum incluídas nos subgéneros (segundo a classificação de Braem) Parvisepalum, Brachypetalum, (os "de flores redondas"), Polyantha (os multiflorais de floração simultânea) e Cochlopetalum (as espécies de floração sequencial). As espécies dos subgéneros Paphiopedilum, Sigmatopetalum e Megastaminodium serão tratadas no segundo volume, e o terceiro será dedicado aos híbridos, quer naturais quer artificiais, a uma revisão da hibridação e a actualizações.




Se podemos considerar a parte introdutória como "normal", a cobertura das espécies é muito inovadora: a riqueza em fotografias é impressionante (perto de 100 fotos só para o Paphiopedilum bellatulum, variações, etc) e confronta-nos com a espantosa variabilidade de, pelo menos, algumas espécies.




A secção dedicada a cada espécie está organizada de uma forma muito clara: Nome e sinónimos da espécie, distribuição geográfica, ecologia, clima no habitat natural, história, descrição da espécie, variantes da espécie, controvérsias sobre a classificação e condições de cultura da espécie. Termina com uma listagem completa dos híbridos primários envolvendo a espécie e ilustrações de alguns deles. 

Parece o livro perfeito. E, no entanto...


Não há bela sem senão…

Esta obra é editada pela excelente revista alemã OrchideenZauber, que nos propõe uma grande lista de livros e publicações sobre temas muito variados, desde as orquídeas aos aquários, e é editado em língua alemã.

Para mim, é mais um livro imperdível, mas compreendo que a língua em que está escrito intimide um pouco. Será uma oportunidade para eu sacudir um pouco o pó do meu Alemão, mas reconheço que a língua em que é publicado constituirá um obstáculo à maior difusão das opiniões do autor. Pode, talvez, ser um estímulo para quem quer desenferrujar o seu alemão ou até aprendê-lo de novo. Não é uma língua tão difícil quanto se pensa: na Alemanha, até as crianças pequeninas a falam...

Com 2200 fotografias em cerca de 500 páginas só no primeiro volume, promete muito! Se os restantes volumes estiverem ao mesmo nível, será, do ponto de vista do coleccionador e cultivador, o melhor livro alguma vez publicado sobre este género. 



Excelente qualidade de produção

A qualidade de produção é excelente. É um livro grande e volumoso, com óptima impressão, e, ao contrário do que é a norma, produzido num papel absolutamente baço. Este papel não dá às fotografias o realce que se obtem com um papel brilhante, mas torna a leitura ou consulta mais cómoda e, visualmente, menos cansativa.

  


As informações fundamentais são as seguintes:

Título: Paphiopedilum - Sudöstasiatische Frauenschuhe Band 1

Autor: Olaf Gruß

Editor: Orchideenzauber-Verlag

Texto: Alemão

Formato: 30 x 22,5 x 4 cm (capa rija)

530 páginas

2200 ilustrações a côres

Preço: 120€

Site: www.orchideenzauber.eu

Email: djs@orchideenzauber.eu

 


 Vale!

Monday, December 21, 2020

 

Tortura chinesa


O assunto que gostaria hoje de abordar é a qualidade de uma colecção de orquídeas. Sendo o tema um pouco provocatório, e podendo incomodar alguns de nós, peço-vos que acreditem que a minha intenção é boa (como todas as outras que enchem o caminho do Inferno).

A realidade é que, por muito afortunados que sejamos, o nosso espaço de cultivo é sempre finito, e a maioria de nós cultiva em espaços muito limitados. Isto limita o número de plantas que podemos ter na colecção. Se ocuparmos o nosso espaço com plantas medíocres, não teremos espaço para plantas boas…

Mas o que é uma colecção?

O conceito varia com cada pessoa, mas podemos identificar desde já uma posição muito frequente: uma colecção é um conjunto de “coisas”. Uma colecção de orquídeas é um conjunto de orquídeas. Ponto. Quem tem esta visão, pensa também, por norma, que uma colecção é tanto melhor quando mais “coisas” incluir. Uma colecção de 100 orquídeas é melhor que uma colecção de 50 orquídeas.

Não subscrevo esta visão porque, para mim, uma colecção não é “um monte de coisas”, mas um conjunto organizado de elementos ligados por uma (ou várias) características comuns. Uma colecção, para mim, tem um tema.

Não quero com isto dizer que uma colecção tem de ser restrita a um só género ou grupo de géneros. Acharia interessantíssima uma colecção de, por exemplo, orquídeas do grupo “Cattleya”, ou orquídeas do Brasil, ou do Sudeste asiático, ou até, porque não? de orquídeas “que consigo cultivar no meu quintal”. Mas a colecção deve ter um tema, uma “história”.

Quem tem amigos filatelistas sabe que, com os milhões de selos que já foram editados, cada um colecciona apenas um ou poucos temas: selos de Portugal, ou selos das Colónias, ou selos com borboletas, blocos comemorativos, enfim…

O que é uma boa colecção? 

Arrumada para já a questão do tema, há outros critérios que têm de ser considerados, e, logo à partida, entendamos o conflito entre quantidade e qualidade.

Que fique claro que, para mim, uma “grande” colecção não se mede pelo número de vasos. Ter duzentos ou quinhentos vasos de Cattleyas, ou Cymbidiums, ou Dendrobiums não faz uma boa colecção. Vemos com frequência nas "colecções" de quem partilha esta visão que muitos vasos são ocupados pelo mesmo híbrido ou espécie (o mais resistente, o que cresce e se propaga melhor…), que as plantas estão sistematicamente em mau estado, roídas pelas pragas e crivadas de doenças, e que há muitas variantes ou tipos importantes que não estão representadas.

Eu advogo que o interesse de cada colecção reside na sua “história” (o tal tema ou temas) e na qualidade de cada uma das plantas que a constituem. Quer tenhamos muito ou pouco espaço podemos ter uma Grande colecção. Basta para isso que as plantas da nossa colecção tenham uma razão para fazer parte dela, estejam bem cultivadas, e sejam clones bons da espécie ou híbrido que representam.

Mas como se constrói uma Boa colecção? Para isto precisamos de informação. Precisamos de saber, para qualquer espécie ou híbrido que tenhamos decidido juntar à colecção, quais são as características que definem uma planta “boa”. Precisamos de saber isto para, ao olhar para uma planta que podemos adquirir, decidir se ela é boa, e compramos, ou se é um clone medíocre, e esperamos que apareça um melhor.

Só assim conseguimos evitar encher o nosso espaço de cultivo com plantas que não prestam, ocupando o espaço e os recursos financeiros que seriam necessários para comprar um clone muito bom, que faria a nossa colecção subir de nível.

Livrinhos, livrinhos… que faria eu sem eles!

O nome de Leopold Sacher-Masoch ficou famoso por ter sido utilizado como base para a palavra “masoquismo”, a busca do prazer pelo sofrimento. Deixando de lado as expressões mais cabeludas da coisa, vejo-me obrigado a concluir que, mesmo nunca o tendo suspeitado, também sofro deste problema.

Vem este assunto à conversa pela enorme satisfação que tive quando, recentemente, e com a ajuda preciosa de uma amiga Taiwanesa, consegui gradualmente adquirir, no mercado taiwanês de livros usados, um conjunto livros editados em Taiwan com o singelo título “Paphiopedilum in Taiwan”. Os livros são editados pela Taiwan Paphiopedilum Society, fundada há mais de 20 anos, e mostram as plantas que vão sendo expostas nas reuniões da sociedade. Têm sido publicados vários volumes, e a série já vai no Paphiopedilum in Taiwan VI.

Não consegui o primeiro, editado há muitos anos e ainda a preto e branco, mas se aparecer algum, não me escapa!








São livros de excelente qualidade, em formato ligeiramente maior que A4, cerca de 160 páginas e capas rígidas, todos a côres. O texto é em Mandarim (o que, para mim, é Chinês) mas as fotografias, apesar de relativamente pequenas, são a côres, e às centenas em cada volume. As legendas das fotografias incluem o nome da espécie ou do híbrido (e seus progenitores) em caracteres ocidentais, pelo que é simples identificar cada planta. Também incluem as dimensões de cada segmento da flôr e o nome do hibridista que expôs a planta. As fotografias são todas tiradas pela Sociedade nas suas exposições, o que evita as tentações de malabarismos com o Photoshop.

Para além destes seis volumes foram também já editados dois volumes ainda mais horríveis: não as plantas que foram expostas, mas apenas aquelas que foram premiadas… Páginas e páginas de fotografias do melhor que os hibridistas taiwaneses conseguiram produzir!





Vejam bem o meu sofrimento: Taiwan é, hoje, o centro mundial do cultivo, selecção, line breeding e hibridação de Paphiopedilum, e um entusiasta do género, ao ver todas aquelas plantas espantosas, sente-se como um guloso esfomeado amarrado à parte de fora da montra de uma pastelaria!

Nenhum viveirista consegue obter boas plantas sem bons progenitores, e os Taiwaneses são mestres em procurar e seleccionar clones excepcionais de cada espécie para usar nos seus programas de line breeding ou hibridação. As fotos nos livros não mostram apenas a descendência de cada cruzamento, mas também os seus extraordinários progenitores. 

Não comprei aqueles livros para me sentir infeliz ou invejoso, mas para ver como são os melhores Paphs que hoje se produzem. Este conhecimento ajudar-me-á a avaliar as plantas da minha colecção, a ver quais são boas e quais são fraquinhas (ou más…) e a decidir em que direcção devo orientar as minhas próximas compras.

Olhar para, por vezes, páginas inteiras de clones seleccionados da mesma espécie ou de frutos de um mesmo cruzamento ensina-nos muito: mesmo nesta situação, em que são apenas plantas expostas por profissionais e grandes entusiastas, e onde, portanto, não aparecem os clones medíocres, aprendemos o quanto pode variar uma espécie ou híbrido.






Os livros de plantas premiadas mostram-nos como os verdadeiros especialistas avaliam a qualidade de cada clone: é muito enriquecedor tentar perceber porque é que a este clone foi dada uma medalha de prata, enquanto àquele foi dada a medalha de ouro. 

Finalmente, estes livros mostram-nos o futuro: as plantas provenientes das novas linhas de hibridação. Para as nossas colecções, e para a gestão das nossas compras, é completamente diferente eu saber ou não reconhecer o que são os novos híbridos quando eles começarem a aparecer no mercado.




 Enfim: é muito didático, mas também é uma tortura!


Dizia o masoquista: Bate-me! Bate-me!

Respondia o sádico: Não...

 

Vale

Wednesday, December 9, 2020

 Orquídea da mata

Resulta esta minha reflexão de um post no Facebook e um fragmento de conversa ouvido por acaso numa das nossas exposições. Ambos aconteceram no final do ano passado.

Nessa conversa entreouvida, um orquidófilo português dizia a outro: “… é como eles fazem no Brasil”.

Quanto ao tal post, partilhado num dos grupos portugueses do Facebook, tinha sido publicado por uma Brasileira, e, acompanhado de uma foto, tanto como me consigo lembrar, rezava: “Qual o nome dessa orquídea que meu marido achou na mata?”


A "sabedoria" que vem de longe

Mais ou menos ao mesmo tempo, comecei a ver em grupos Facebook de orquidófilos portugueses anúncios a cursos sobre cultivo de orquídeas partilhados por cultivadores brasileiros. Lembrei-me logo da senhora cujo marido tinha achado uma orquídea na mata…

As orquídeas que queremos cultivar são espécies exóticas (ou híbridos entre elas): são oriundas de áreas distantes e com climas diferentes. Os problemas que o cultivador enfrenta devem-se às diferenças entre as condições ambientais em que cada espécie vive na sua área de distribuição natural e as prevalentes no local onde as pretendemos cultivar. Estes problemas obrigam-nos a desenvolver técnicas de cultivo que nos permitam compensar as diferenças de temperatura, luminosidade e humidade ambiente. Cultivar orquídeas no Brasil ou na Tailândia não é o mesmo que as cultivar em Portugal!

O facto de um cultivador brasileiro postar fotos de excelentes plantas de Cattleya ou Catasetum amarrados a árvores não significa que eu vá a correr amarrar os meus ao pinheiro, nespereira ou loendro que cresce no meu jardim. Quem já viajou pelo Oriente ficou certamente impressionado pelas enormes plantas de Dendrobium ou híbridos de Vanda que crescem luxuriantes agarradas às árvores de avenida ou mesmo em grandes vasos de cimento ao longo dos passeios.

Será essa a melhor forma de cultivar orquídeas em Portugal?

A resposta a esta questão exige que se considerem dois pontos:

Desde há relativamente pouco tempo vi aumentar nos grupos do FB os posts de quem prende orquídeas às árvores nos eu quintal. Ao que sei, até chegaram a fazer-se workshops sobre o tema. Penso que será importante distinguir entre cultivar uma orquídea e ter uma orquídea que sobrevive.


O que significa "cultivar" uma orquídea 

Idealmente, uma orquídea bem cultivada é uma planta limpa e saudável, que cresce de ano para ano, dá pseudobolbos ou crescimentos gradualmente maiores, floresce cada vez mais, com mais e maiores flores. Verdade?

Uma orquídea que não cresce, ou diminui gradualmente de tamanho, dando pseudobolbos ou crescimentos cada vez menores, florindo cada vez menos até deixar de florir, e que está permanentemente cheia de doenças e pragas não está a ser cultivada: está a ser assassinada.

Porque as orquídeas fazem tudo devagar, incluindo morrer, uma tal planta até pode durar uns anos, mas tem o destino traçado desde a hora em que o dono resolveu fazer aquilo…


Nem toda a informação é igualmente útil

A outra questão é mais simples de analisar: a senhora brasileira tinha em casa uma orquídea que o marido tinha “achado na mata”. Nada no post sugeria que a mata era longe do sítio onde ela morava. Ela não cultivava aquela planta: mantinha-a, e mantinha-a nas mesmas condições ambientais do habitat natural da espécie.

Esta é a vantagem dos orquidófilos que vivem em países tropicais: enquanto quiserem manter as espécies locais, têm 90% do trabalho feito; não precisam de estufas, nem de aquecimento, nem de controle de humidade. Um pouco de sombra chega bem. Essas plantas, que aqui seriam orquídeas exóticas e lá são orquídeas nativas, sobrevivem com facilidade. Difícil mesmo é cultivá-las aqui…

Vejam bem: eu sou um jardineiro de mão-cheia! Basta vir ao meu terreno e ver que viçosos estão os meus cardos e urtigas…

Eu consulto frequentemente outros orquidófilos para tentar aprender. É-me útil perceber o que fazem e como fazem para cultivar plantas com que tenho pouca experiência ou onde não tenho obtido resultados tão bons como desejaria.

Para plantas menos conhecidas, e para as quais há pouca informação publicada, consulto também amigos ou contactos que vivem nas zonas de origem dessas espécies, para saber as condições em que crescem na Natureza. Mas não tento reproduzir as condições em que eles as cultivam nas suas estufas ou jardins. Isso não é relevante: eu quero cultivá-las em Portugal, não em Taiwan ou na Colômbia...

A informação que eu procuro só pode ser obtida junto de quem cultiva com bons resultados as espécies que eu quero cultivar em condições muito semelhantes àquelas que eu posso fornecer.

Que fique claro que eu sei que existem excelentes cultivadores em países tropicais, mas não é por alguém cultivar Cattleyas no Brasil ou Dendrobium na Tailândia que eu devo tentar imitar as suas técnicas.

É muito diferente cultivar orquídeas tropicais numa zona tropical e tentar cultivar orquídeas num clima temperado, a milhares de quilómetros de distância. São outros problemas, que exigem outras técnicas de cultivo.


As técnicas de cultivo

No Verão do ano passado, visitei o jardim botânico de Bona (que vale bem a visita!) e, entre muitas outras plantas, apreciei a colecção de plantas mediterrânicas que lá se cultivam.

Foi uma surpresa ver sobreiros adultos com vários metros de altura cultivados em vaso (de mais de 1,5 m de diâmetro), mas, pensando melhor, compreendi que, devido às diferenças climáticas, aquelas plantas que eu via no exterior em Setembro tinham de estar protegidas durante muitos meses em cada ano. Aqueles vasos, que pesam várias toneladas, são levados por um monta-cargas para uma estufa quando o frio aperta, e só voltam para o exterior na Primavera.

Enquanto nós podemos facilmente cultivar um sobreiro no quintal, a equipa daquele jardim botânico tinha sido obrigada a desenvolver técnicas que lhe permitissem conservar as plantas num clima muito diferente do da sua origem. O que nós fazemos aqui não seria suficiente.

As técnicas de cultivo evoluem para fazer face às dificuldades criadas pela diferença entre as condições em que a planta vive no seu habitat natural e aquelas que existem no sítio em que eu a quero cultivar. Se eu quero aprender a sério, devo procurar aqueles que cultivam bem as plantas que eu gostaria de ter em condições semelhantes às minhas.

É igualmente evidente que, aqui em Portugal, ninguém no seu perfeito juízo iria querer cultivar sobreiros adultos em vaso!

Ai, desculpem: há a malta dos Bonsai…

Só me meto em confusões…

 

Vale

Saturday, November 28, 2020

 

Orquídeas miniatura

 

A Compendium of Miniature Orchid Species - Standard Edition (4 volumes)

 

A expressão práctica da paixão pelas orquídeas tem evoluído ao longo do tempo. Essa evolução tem sido ditada não apenas pelo aumento do conhecimento de que dispomos sobre estas plantas, mas também por mudanças nas próprias sociedades e nas condições de vida dos cidadãos.

Desde logo, uma alteração dos padrões de distribuição da riqueza tornou o cultivo das orquídeas acessível a uma faixa muito maior da população da Europa e América do Norte, deixando esse prazer de ser um privilégio da nobreza e burguesia endinheiradas. Por outro lado, as dinâmicas de industrialização, urbanização e concentração demográfica nas sociedades industriais fixaram uma grande parte dessa população nas cidades ou nos seus subúrbios, habitando espaços físicos cada vez mais reduzidos.

O orquidófilo contemporâneo não cultiva como nos tempos dos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX: não é fácil ter um rancho de jardineiros e uma bateria de estufas de centenas de metros quadrados quando se vive num segundo-esquerdo…

Apesar de não serem a base da minha colecção, as orquídeas miniatura sempre me interessaram: em comparação com plantas de tamanho, digamos, “normal”, o mesmo espaço de cultivo pode conter uma quantidade e variedade incomparavelmente maiores de espécies. Para os muitos entusiastas que não dispõem de jardins ou espaços para estufas ou abrigos, as orquídeas miniatura podem ser a única hipótese de ter uma colecção, e, mesmo para quem não tem problemas de espaço, são uma forma segura de adicionar variedade e interesse às nossas colecções.

Quanto ao espaço, veja-se que não precisamos de ir para os três metros de um Grammatophylum ou para os seis metros de um Selenipedium: um Cymbidium standard ocupa facilmente um vaso de 30cm ou mais de diâmetro e tem perto de um metro de altura; uma planta adulta de, por exemplo, Paphiopedilum rotschildianum, atinge 80 cm ou mais de ponta a ponta das folhas…

Muitos dos orquidófilos modernos não dispõem de espaço físico para cultivar estas plantas, e, por isso, muitas das linhas de hibridação mais recentes têm tentado obter plantas ditas “de windowsill”, passíveis de ser cultivadas nos reduzidos espaços disponíveis nas habitações normais. Vejam-se os cruzamentos de Paphiopedilum envolvendo as espécies “anãs”, muitos híbridos primários ou cruzamentos novelty de Phalaenopsis e mesmo, no “grupo” das Cattleyas, as Potinaras, com flores mais pequenas, mas com tamanhos de planta equivalentes a uma fracção do tamanho de uma Cattleya dita standard.

Para além do factor “espaço”, o facto de serem miniaturas torna possível o cultivo de espécies muito exigentes em termos de condições ambientais através do uso de iluminação artificial, terrários ou mesmo de frigoríficos adaptados. Acresce que imensas destas espécies são muitíssimo bonitas e/ou interessantes!

Por tudo isto, em 2017 comprei um excelente livro sobre orquídeas miniatura: A Compendium of Miniature Orchid Species, escrito por Ron Parsons e Mary Gerritsen e publicado pela Redfern. Dois volumes de formato muito grande, que, juntos, pesavam 9 Kg. Tive sorte em os conseguir comprar, porque essa primeira edição, de 2013, esgotou ainda em 2017, e cada volume vende-se hoje por mais de 1000 dólares no mercado de livros raros.

Tenho-me mantido em contacto com Mary Gerritsen, e soube recentemente que estavam a considerar uma nova edição. Ei-la que chega!

Também editada pela Redfern, esta segunda edição, que é prefaciada por Adam Karremans, o director do Jardim Botânico Lankester, na Costa Rica, foi revista, corrigida e muito aumentada, e será publicada no Verão de 2021. Não será “o mesmo” livro, dado que foi actualizada a nomenclatura e aumentado significativamente o número de fotografias e de espécies representadas.

A nova edição, estará dividida em quatro volumes (publicados simultaneamente) e cada volume, sendo ainda um livro grande, terá um formato mais pequeno e mais fácil de manusear. Isto é uma vantagem: não é fácil ter no colo um livro com mais de quatro quilos…

Note-se que a primeira edição não era um mero “livro de fotografias”: tinha capítulos excelentes sobre classificação de orquídeas, morfologia, cultivo, substratos, etc. A secção de cultivo (que se mantém nesta edição) era tão completa e abrangente que daria um excelente livro sobre orquicultura. A lista de capítulos da segunda edição, disponível no link da Redfern no fim deste post, sugere que esta seja também muito interessante.

Sabemos que um bom livro é o produto de muita experiência, mas não temos, normalmente, consciência de quanta. Em conversa recente com a autora, perguntei quantos anos tinha levado a recolher a informação necessária para este livro. A resposta foi esclarecedora: há 45 anos que Ron Parsons, um dos autores, cultiva orquídeas e as procura nos seus habitats naturais. São dele as macrofotografias extraordinárias que ilustram o livro, muitas delas fotos de página inteira de flores com muito poucos milímetros. Mary cultiva orquídeas miniatura há mais de 20 anos e contribuiu com todo o seu saber para a obra final. Para além da sua própria experiência, os autores contaram com um conjunto de colaboradores que contribuíram com os seus conhecimentos especializados, tornando o livro ainda mais útil para qualquer aficionado por este grupo de orquídeas. Desde 2013 que ambos os autores têm visitado nurseries e colecções particulares, e viajado por todo o mundo para observar e fotografar espécies que não foram incluídas naquela primeira edição.

A segunda edição agora anunciada inclui, assim, mais algumas centenas de espécies, e todo o texto foi revisto e corrigido num processo que durou um ano e meio, e que permitiu integrar muito do feed-back recebido pelos autores em relação à primeira edição.

Aconselho-a vivamente! Será uma compra que nos acompanhará a vida toda.


Descrição


Título: A Compendium of Miniature Orchid Species - Standard Edition (4 volumes)

Autores: Ron Parsons e Mary Gerritsen

Editor: Redfern Natural History Productions Limited (Inglaterra)

Texto: Inglês

Formato: 270 x 205 mm

Cerca de 1800 páginas (cerca de 450 páginas por volume)

2600 imagens, entre as quais mais de 1000 fotos nunca publicadas

Preço: 199,96 Libras Esterlinas (cerca de 224€ à taxa de câmbio actual)

Data de publicação: Verão de 2021

Site: https://redfernnaturalhistory.com/product/miniature-orchids-set-of-four-volumes/

Também está disponível nesta altura uma edição especial em quantidade reduzida encadernada em cabedal preto. O preço desta edição de luxo é de cerca de 600 libras esterlinas.

 

Vale!

Friday, November 27, 2020

 Os Pleurothallids


Pleurothallids – Neotropical Jewels Vol. 1

 

Não é possível cultivar orquídeas sem informação. Infelizmente, tal como as pessoas, as orquídeas também não são todas iguais… Se abundam os livros (nem todos bons…) sobre Paphiopedilum, Cattleyas e Phalaenopsis, os entusiastas por muitos outros grupos de orquídeas não beneficiam de livros técnicos específicos. A existência de boa informação sobre um grupo é determinante da sua popularidade junto dos orquidófilos.

Um livro recentemente publicado vem colmatar uma lacuna importante na informação disponível sobre um grupo especial de orquídeas. Trata-se do primeiro de quatro volumes de Pleurothallids – Neotropical Jewels.



O grupo de orquídeas vulgarmente designado por “Pleurothallids” corresponde taxonomicamente à subtribo Pleurothallidinae e é um dos mais interessantes sob o ponto de vista do orquidófilo: apesar de estar restrito às regiões tropicais do Novo Mundo, inclui mais de 5500 espécies aceites pela comunidade científica, que ocupam a maioria dos habitats na América Central e do Sul, desde as florestas quentes e húmidas ao nível do mar até às florestas de bruma das mais altas montanhas. Há espécies terrestres, epífitas e litófitas. São plantas extremamente variáveis, com tamanhos que vão do grande até às mini-miniaturas, e entre elas incluem-se géneros famosos e desejáveis como as Dracula e as Masdevallia.

Nos últimos anos sucedem-se as descobertas de novas espécies, anteriormente desconhecidas, e o conhecimento científico sobre este grupo tem vindo a aumentar rapidamente.

As Pleurothallids foram objecto de vários estudos no passado, o mais importante dos quais terá sido o conjunto dos trabalhos pioneiros do recentemente falecido Professor Carlyle A. Luer, a cuja memória este novo livro é dedicado. Os seus estudos foram editados ao longo dos anos 80 pelo Missouri Botanical Garden na série Monographs in Systematic Botany sob o título genérico “Icones Pleurothallinidarum – Systematics of the Pleurothallidinae (Orchidaceae)” e em cada um desses fascículos, ilustrados com desenhos botânicos a preto e branco, o Prof Luer descrevia um ou alguns dos géneros então aceites e as espécies que cada um deles incluía. Os poucos desses fascículos que tenho a sorte de possuir constituem verdadeiros tesouros da minha colecção de livros.

Desde a publicação destes trabalhos mais antigos foram descobertas e descritas para a Ciência muitas novas espécies, e o nosso conhecimento sobre o grupo aumentou muito. Os trabalhos de Carlyle A. Luer exemplificam, no entanto, o estado do conhecimento científico sobre estas orquídeas até à véspera da publicação deste novo livro: a informação disponível estava, em grande parte, desactualizada, e dispersa por publicações muito difíceis de obter.

Tive conhecimento da publicação futura deste novo livro no início do Verão, e, analisada a informação então disponível sobre este projecto, fiz imediatamente uma pré-encomenda do primeiro volume. Recebi-o no dia 6 de Outubro, e ainda estou na primeira leitura…





Atenção: este novo livro NÃO é uma mera súmula do conhecimento antigo! Longe disso: além de resumir o conhecimento atualmente disponível, beneficia de contribuições das mais variadas especialidades da Botânica moderna e é uma proposta nova de classificação da subtribo. Constitui um novo olhar sobre a diversidade dos géneros e espécies que a compõem e é uma ferramenta para a identificação dos géneros e espécies das Pleurothallidinae, incluindo copiosas notas sobre a sua taxonomia, morfologia, distribuição geográfica, ecologia e polinização.


Pleurothallids – Neotropical Jewels Vol. 1
foi escrito por Adam Karremans, o director do Jardim Botânico Lankester, na Costa Rica e Sebastian Uribe, um botânico, investigador e fotógrafo Colombiano, e é o primeiro de quatro volumes que serão publicados a intervalos regulares.

Os autores não pretendem ilustrar a totalidade das mais de 5500 espécies actualmente aceites, e podemos compreender que tal não seria possível. No entanto, a obra cobrirá a totalidade dos géneros e, em cada género, um número sempre importante das espécies mais importantes e representativas. Em vários géneros chega mesmo a ilustrar a totalidade ou quase totalidade das espécies conhecidas. 





É impressionante a quantidade de novas espécies de Pleurothallidinae descobertas a cada ano que passa. De igual forma, estão permanentemente a ser disponibilizadas para os orquidófilos espécies que antes não eram cultivadas, e acerca das quais não dispomos de informação. Não sendo este um livro sobre o cultivo de orquídeas, inclui informações preciosas para quem pretende cultivar as espécies menos conhecidas: na descrição de cada género são abordada a sua ecologia e distribuição geográfica na Natureza, e, na maioria das espécies, vem referida a localidade em que as fotos foram feitas. Uma busca simples no Google Maps fornece-nos imediatamente os dados de latitude e altitude a partir dos quais podemos deduzir as condições climáticas em que as plantas vivem no seu habitat natural.

E tem tantas fotografias! E que fotografias! Todas as espécies são ilustradas por uma ou mais fotografias ou macrofotografias a côres, muitas delas tiradas na Natureza. A grande maioria das fotos em Pleurothallids – Neotropical Jewels é dos autores, mas estes conseguiram congregar um conjunto invejável de colaboradores, o que lhes permitiu a cobertura fotográfica de espécies da totalidade da área de distribuição da subtribo.

A minha opinião?

Neste momento, a minha colecção só inclui cinco Pleurothallids, mas este primeiro volume foi um choque: não fazia ideia da variedade imensa de formas, padrões e côres nas Pleurothallidinae… quase que aposto que irão aparecer cada vez mais espécies na minha colecção…

Espero ansiosamente pelo segundo volume, que será editado em 2022.

Título: Pleurothallids – Neotropical Jewels Vol. 1

Autores: Adam Karremans e Sebastian Vieira Uribe

Editor: Orchilibra

Texto: Inglês

Formato: Mais ou menos A4

 1000 Fotografias, incluindo fotos na Natureza, fotos de SEM com detalhes das flores, polinizadores, etc.

Géneros incluídos: 17

Espécies ilustradas: mais de 500

Preço: US$ 128

Site: https://orchilibra.com/posts/shop


Vale!

Thursday, November 26, 2020

 


 A Guerra do Bicholin

 

Apologia pro defensione librorum

Em tempos passados, em conversa com um amigo destas lides, discutimos a utilidade dos livros: na sua opinião, os livros sobre orquídeas são caros e desnecessários, visto que a informação se encontra na net, mais actualizada e sem ter de se pagar nada. O que poderia, então, justificar o investimento num livro?

Não concordei com aquele amigo. Permitam que explique porquê:


Porque é que os livros são caros

Os livros sobre orquídeas tendem a ser dispendiosos, e é raro encontrar hoje uma obra nova que custe menos de 100 €.

Não é difícil perceber porquê: são livros que vivem das fotografias, o que exige formatos físicos grandes, tecnologias de impressão avançadas e complexas e papel da mais alta qualidade. Os processos de escrita, edição de texto e revisão técnica são demorados e laboriosos.

Acima de tudo, são livros destinados a uma audiência limitada, pelo que as primeiras edições raramente atingem os 1000 exemplares a nível mundial. O investimento para uma nova edição é muito grande, e o tempo de recuperação desse investimento é muito longo. Por isso, raramente se publicam segundas edições: quem comprou a primeira, tudo bem, quem não conseguiu comprar, temos pena…

O nível de investimento necessário para a edição de um livro exige, normalmente, a participação de uma empresa ou entidade investidora, que, tendo muito a ganhar ou a perder no processo, se esforçará por garantir a qualidade do produto, para que este atinja, na perspectiva do cliente potencial, o maior valor possível. Um livro que o potencial cliente veja como “bom”, de um autor de credibilidade estabelecida, editado por uma empresa prestigiada pela história das suas edições, poderá ser vendido por um preço superior, e o investimento inicial poderá ser recuperado mais rapidamente. Assim, o interesse económico do próprio investidor torna-se uma garantia de qualidade.


E a informação na net?

Tendo-se tornado um meio incontornável de contacto entre pessoas, permitindo a comunicação e a troca de informação entre aqueles que, espalhadas pelo mundo, partilham os mesmos interesses, a internet tornou-se, também, um esgoto a céu aberto onde falsidade, desinformação e manipulação flutuam num caldo nojento de insulto, mentira e ignorância.

É fácil compreender porque isto acontece.

Comecemos por lembrar que os conteúdos na net não estão sujeitos a nenhuma lei nacional ou internacional: os interesses económicos dos produtores de conteúdos e dos fornecedores de serviços de net ditaram que esta não seja auditada, que não haja confirmação independente da correcção e veracidade dos conteúdos. Graças a isso, cada um publica o que quer ou mais lhe convém, e não tem de prestar contas a ninguém.

As notícias dos últimos tempos mostram como países e organizações têm aproveitado esta ausência de regulação para, através da publicação e disseminação de falsidades, travar guerras assimétricas não-convencionais contra outros países e organizações, com quem, teoricamente, estão em Paz.

A vaidade e a ignorância de muitos dos particulares que publicam na net fazem o resto: qualquer ignorante pode criar um site ou página com um nome que inspira credibilidade, qualquer imbecil pode publicar uma idiotice, qualquer cretino transforma opinião pessoal em verdade publicada.

Na net, a verdade e a mentira parecem iguais.

Quer isto dizer que considero que tudo quanto está na net é mentira?

Não: nos (poucos) temas que, graças a uma instrução formal de nível superior e a longo historial de recolha e análise de informação e sua discussão com especialistas reconhecidos, considero que domino encontro muita informação interessante e correcta na net. Mas também encontro muito disparate.

A questão não se coloca, portanto, nas áreas de conhecimento que domino e onde tenho condições para avaliar a qualidade da informação a que acedo: o problema real põe-se exatamente nas áreas em que, por não as dominar, procuro informar-me. Se já sei que, nos assuntos que conheço, muito do publicado é disparate, tenho de admitir que tal também acontecerá em outros temas, onde, por ignorância, não serei capaz de destrinçar o que é verdade do que é mentira.

Alguns sites são auditados: as publicações nos sites das revistas técnicas são sujeitas à avaliação de referee boards e inspiram mais confiança. Estes sites existem, mas são, infelizmente, uma ínfima minoria na net. E não são gratuitos: exigem subscrições pagas!


O caso da Wikipaedia

E assim, a título de exemplo, chego ao site mais utilizado para obtenção de informação: a Wikipédia.

Contribuo ocasionalmente para a Wikipédia com doações financeiras, e uso-a com frequência, mas, mesmo aí, procuro confirmação do que lá vejo. Porque, apesar de ser uma estrutura auditada, a Wikipédia também tem informação falsa…

Durante vários anos, uma entrada na Wikipédia descrevia a Guerra do Bicholin, uma guerra travada na Índia entre o Império português e o império Maharatta durante a década de 1640. Este conflito não era referido em nenhum dos livros até então publicados. Explicavam-se as causas políticas da guerra, descreviam-se as acções e forças militares envolvidas e inventariavam-se baixas e perdas e ganhos de território. Terminava-se com as acções diplomáticas que tinham posto fim ao conflito. A entrada incluía uma lista das referências onde tinha sido recolhida a informação utilizada para a elaboração do artigo.

Era tudo mentira.

Não houve, nesse local e nessa época, nenhuma guerra entre os portugueses e os Maharattas. Não tinha havido baixas nem mudanças territoriais, e, não tendo havido guerra, não tinha havido processo de Paz. Todas as referências listadas no artigo eram falsas ou circulares.

Vários investigadores portugueses denunciaram a entrada como falsa, mas, infelizmente, a empresa contratada pela Wikipédia para auditar os seus conteúdos está na América, e, para ela, o conhecimento dos portugueses não era relevante. Foi necessário esperar vários anos até que um americano mostrasse que tudo aquilo era um disparate para o artigo ser retirado. Aqueles que, durante esse período, leram a entrada sobre a Guerra de Bicholin (e que não sabem que o artigo foi retirado por ser falso) continuarão convictos de que, em 1640, os portugueses combateram os poderosos Maharattas com os resultados que a Wikipédia referia.

Lembrando o centenário do nascimento da saudosa Amália: tudo isto existe, tudo isto é triste…

Pelas razões acima elencadas, a probabilidade de isto acontecer num livro, existindo, é baixíssima.

 

As minhas conclusões

Termino enunciando os meus princípios na busca de informação:

1 - Toda a informação recolhida deve ser sujeita a crítica e confirmada através de várias fontes diferentes e de discussão com quem mais sabe sobre cada assunto.

2 - A informação publicada em livros é sempre mais credível que a publicada na net.

3 - Os livros são o melhor investimento para quem quer saber mais.

 

Expus as razões heurísticas que apoiam a escolha dos livros como fonte principal de informação, mas existem outras, mais nos domínios da afectividade e sensualidade.

Um livro é um objecto: o peso, o toque, o próprio cheiro do papel e das tintas permitem uma relação ao nível dos sentidos, uma relação no campo do concreto, impossível de estabelecer com imagens fugazes no mesmo ecrã que nos mostra as notícias, a publicidade ou as previsões meteorológicas.

O livro é, finalmente, portátil: podemos consultá-lo na poltrona, na cama, na casa de banho ou na paragem do autocarro. Mais: para o utilizarmos ele não precisa de ter a bateria carregada ou de estar ligado à tomada… Bem mais práctico que qualquer computador, por muito portátil que seja.

 

Para além de graves problemas para todos nós, o ano de 2020 também está trazendo coisas boas: está a ser pródigo em edições e anúncios de edições de novos livros sobre orquídeas.

Nos próximos posts apresentarei algumas das novidades editoriais de recentes, e, quando tal fôr possível, a minha opinião sobre cada uma.

 

Vale!

 

Regresso


Em princípios de 2020, quem sabe se aborrecida pela monotonia da sua rotação, a Terra bocejou e sacudiu-se como um cão molhado, mas, observando o que a rodeava e não gostando das alternativas, lá se resignou: acomodou-se de novo ao seu amado eixo e lá voltou a girar paulatinamente, como há já tempos fazia.

Não era a primeira vez que isto acontecia, mas, nesse momento, o Mundo mudou para nós.

Estou convicto de que no futuro muito será como dantes, mas muito terá também mudado ou virá ainda a mudar.

Mais para uns do que para outros, mas para todos, a pandemia é uma ameaça existencial, uma nova forma de morrer e matar num Mundo em que as opções para isso já não faltavam, e as medidas que todos temos de tomar para reduzir a nova ameaça são facas apontadas aos nossos eus mais profundos. Não voltaremos a ser exatamente o que éramos.

Portugueses, Espanhóis, Italianos, Mediterrânicos na generalidade, sofreremos particularmente o impacto das indispensáveis estratégias de distanciamento social.

Trabalhei a maior parte da vida em empresas multinacionais, e, nas reuniões internacionais, nada aborrecia mais os meus colegas do Norte da Europa do que a diferença, para eles inexplicável, nos processos de tomada de decisões. Enquanto Alemães, nórdicos, Holandeses, discutiam e decidiam na sala de reuniões, os Mediterrânicos deixavam a decisão para a mesa do restaurante, depois de uma bem regada refeição.

Esta busca da proximidade e do convívio presencial é muito nossa, e nós somos muito ela. Aproximamos as cabeças quando temos alguma coisa mais importante para dizer. Beijamo-nos, abraçamo-nos, cumprimentamo-nos. Vivemos do contacto com o interlocutor, e procuramos o contacto físico.

Para mim, privilegiado por não morar num andar e poder vir ao exterior quando me apetece, é, em todo este processo, o que mais me custa: sinto de forma aguda a falta de oportunidades de convívio e a proximidade física com os meus amigos e conhecidos. Sou um ser profundamente sensual…

Sei que as consequências económicas da pandemia e das medidas de contenção necessárias provocaram em muitos de nós um sofrimento atroz, mas confesso que o que mais me faz sofrer é esta forma de solidão.

A tecnologia não resolve o problema, mas, de algum modo, pode mitigá-lo. Até na esterqueira em que se tornaram as redes ditas sociais podemos encontrar oportunidades para interacção, mas mesmo aí noto uma tendência para o afastamento entre aqueles que antes mais participavam.

Os orquidófilos portugueses comunicavam entre si com regularidade, não apenas nas exposições principais e workshops e encontros regulares de menor dimensão, como através dos diferentes grupos no Facebook. Numa altura em que, por razões evidentes, as reuniões presenciais estão suspensas, foi uma grande surpresa ver uma redução marcada da participação na net. Estamo-nos a isolar.

Foi tudo isto que me levou a tentar reactivar o Blog que antes mantive. As minhas elucubrações podem não interessar a muita gente, mas, se a sua partilha me ajudar a manter contactos, então vale a pena!

Tentarei publicar com maior frequência que no passado, e solicito as vossas opiniões sobre o que aqui irá aparecendo.

Fiquem bem!

Vale!