Thursday, November 26, 2020

 


 A Guerra do Bicholin

 

Apologia pro defensione librorum

Em tempos passados, em conversa com um amigo destas lides, discutimos a utilidade dos livros: na sua opinião, os livros sobre orquídeas são caros e desnecessários, visto que a informação se encontra na net, mais actualizada e sem ter de se pagar nada. O que poderia, então, justificar o investimento num livro?

Não concordei com aquele amigo. Permitam que explique porquê:


Porque é que os livros são caros

Os livros sobre orquídeas tendem a ser dispendiosos, e é raro encontrar hoje uma obra nova que custe menos de 100 €.

Não é difícil perceber porquê: são livros que vivem das fotografias, o que exige formatos físicos grandes, tecnologias de impressão avançadas e complexas e papel da mais alta qualidade. Os processos de escrita, edição de texto e revisão técnica são demorados e laboriosos.

Acima de tudo, são livros destinados a uma audiência limitada, pelo que as primeiras edições raramente atingem os 1000 exemplares a nível mundial. O investimento para uma nova edição é muito grande, e o tempo de recuperação desse investimento é muito longo. Por isso, raramente se publicam segundas edições: quem comprou a primeira, tudo bem, quem não conseguiu comprar, temos pena…

O nível de investimento necessário para a edição de um livro exige, normalmente, a participação de uma empresa ou entidade investidora, que, tendo muito a ganhar ou a perder no processo, se esforçará por garantir a qualidade do produto, para que este atinja, na perspectiva do cliente potencial, o maior valor possível. Um livro que o potencial cliente veja como “bom”, de um autor de credibilidade estabelecida, editado por uma empresa prestigiada pela história das suas edições, poderá ser vendido por um preço superior, e o investimento inicial poderá ser recuperado mais rapidamente. Assim, o interesse económico do próprio investidor torna-se uma garantia de qualidade.


E a informação na net?

Tendo-se tornado um meio incontornável de contacto entre pessoas, permitindo a comunicação e a troca de informação entre aqueles que, espalhadas pelo mundo, partilham os mesmos interesses, a internet tornou-se, também, um esgoto a céu aberto onde falsidade, desinformação e manipulação flutuam num caldo nojento de insulto, mentira e ignorância.

É fácil compreender porque isto acontece.

Comecemos por lembrar que os conteúdos na net não estão sujeitos a nenhuma lei nacional ou internacional: os interesses económicos dos produtores de conteúdos e dos fornecedores de serviços de net ditaram que esta não seja auditada, que não haja confirmação independente da correcção e veracidade dos conteúdos. Graças a isso, cada um publica o que quer ou mais lhe convém, e não tem de prestar contas a ninguém.

As notícias dos últimos tempos mostram como países e organizações têm aproveitado esta ausência de regulação para, através da publicação e disseminação de falsidades, travar guerras assimétricas não-convencionais contra outros países e organizações, com quem, teoricamente, estão em Paz.

A vaidade e a ignorância de muitos dos particulares que publicam na net fazem o resto: qualquer ignorante pode criar um site ou página com um nome que inspira credibilidade, qualquer imbecil pode publicar uma idiotice, qualquer cretino transforma opinião pessoal em verdade publicada.

Na net, a verdade e a mentira parecem iguais.

Quer isto dizer que considero que tudo quanto está na net é mentira?

Não: nos (poucos) temas que, graças a uma instrução formal de nível superior e a longo historial de recolha e análise de informação e sua discussão com especialistas reconhecidos, considero que domino encontro muita informação interessante e correcta na net. Mas também encontro muito disparate.

A questão não se coloca, portanto, nas áreas de conhecimento que domino e onde tenho condições para avaliar a qualidade da informação a que acedo: o problema real põe-se exatamente nas áreas em que, por não as dominar, procuro informar-me. Se já sei que, nos assuntos que conheço, muito do publicado é disparate, tenho de admitir que tal também acontecerá em outros temas, onde, por ignorância, não serei capaz de destrinçar o que é verdade do que é mentira.

Alguns sites são auditados: as publicações nos sites das revistas técnicas são sujeitas à avaliação de referee boards e inspiram mais confiança. Estes sites existem, mas são, infelizmente, uma ínfima minoria na net. E não são gratuitos: exigem subscrições pagas!


O caso da Wikipaedia

E assim, a título de exemplo, chego ao site mais utilizado para obtenção de informação: a Wikipédia.

Contribuo ocasionalmente para a Wikipédia com doações financeiras, e uso-a com frequência, mas, mesmo aí, procuro confirmação do que lá vejo. Porque, apesar de ser uma estrutura auditada, a Wikipédia também tem informação falsa…

Durante vários anos, uma entrada na Wikipédia descrevia a Guerra do Bicholin, uma guerra travada na Índia entre o Império português e o império Maharatta durante a década de 1640. Este conflito não era referido em nenhum dos livros até então publicados. Explicavam-se as causas políticas da guerra, descreviam-se as acções e forças militares envolvidas e inventariavam-se baixas e perdas e ganhos de território. Terminava-se com as acções diplomáticas que tinham posto fim ao conflito. A entrada incluía uma lista das referências onde tinha sido recolhida a informação utilizada para a elaboração do artigo.

Era tudo mentira.

Não houve, nesse local e nessa época, nenhuma guerra entre os portugueses e os Maharattas. Não tinha havido baixas nem mudanças territoriais, e, não tendo havido guerra, não tinha havido processo de Paz. Todas as referências listadas no artigo eram falsas ou circulares.

Vários investigadores portugueses denunciaram a entrada como falsa, mas, infelizmente, a empresa contratada pela Wikipédia para auditar os seus conteúdos está na América, e, para ela, o conhecimento dos portugueses não era relevante. Foi necessário esperar vários anos até que um americano mostrasse que tudo aquilo era um disparate para o artigo ser retirado. Aqueles que, durante esse período, leram a entrada sobre a Guerra de Bicholin (e que não sabem que o artigo foi retirado por ser falso) continuarão convictos de que, em 1640, os portugueses combateram os poderosos Maharattas com os resultados que a Wikipédia referia.

Lembrando o centenário do nascimento da saudosa Amália: tudo isto existe, tudo isto é triste…

Pelas razões acima elencadas, a probabilidade de isto acontecer num livro, existindo, é baixíssima.

 

As minhas conclusões

Termino enunciando os meus princípios na busca de informação:

1 - Toda a informação recolhida deve ser sujeita a crítica e confirmada através de várias fontes diferentes e de discussão com quem mais sabe sobre cada assunto.

2 - A informação publicada em livros é sempre mais credível que a publicada na net.

3 - Os livros são o melhor investimento para quem quer saber mais.

 

Expus as razões heurísticas que apoiam a escolha dos livros como fonte principal de informação, mas existem outras, mais nos domínios da afectividade e sensualidade.

Um livro é um objecto: o peso, o toque, o próprio cheiro do papel e das tintas permitem uma relação ao nível dos sentidos, uma relação no campo do concreto, impossível de estabelecer com imagens fugazes no mesmo ecrã que nos mostra as notícias, a publicidade ou as previsões meteorológicas.

O livro é, finalmente, portátil: podemos consultá-lo na poltrona, na cama, na casa de banho ou na paragem do autocarro. Mais: para o utilizarmos ele não precisa de ter a bateria carregada ou de estar ligado à tomada… Bem mais práctico que qualquer computador, por muito portátil que seja.

 

Para além de graves problemas para todos nós, o ano de 2020 também está trazendo coisas boas: está a ser pródigo em edições e anúncios de edições de novos livros sobre orquídeas.

Nos próximos posts apresentarei algumas das novidades editoriais de recentes, e, quando tal fôr possível, a minha opinião sobre cada uma.

 

Vale!

No comments:

Post a Comment