A Guerra do
Bicholin
Apologia pro defensione librorum
Em tempos
passados, em conversa com um amigo destas lides, discutimos a utilidade dos
livros: na sua opinião, os livros sobre orquídeas são caros e desnecessários,
visto que a informação se encontra na net, mais actualizada e sem ter de se
pagar nada. O que poderia, então, justificar o investimento num livro?
Não concordei com
aquele amigo. Permitam que explique porquê:
Porque é que os livros são caros
Os livros sobre orquídeas tendem a ser dispendiosos, e é raro encontrar
hoje uma obra nova que custe menos de 100 €.
Não é difícil perceber porquê: são livros que vivem das fotografias, o que
exige formatos físicos grandes, tecnologias de impressão avançadas e complexas
e papel da mais alta qualidade. Os processos de escrita, edição de texto e
revisão técnica são demorados e laboriosos.
Acima de tudo, são
livros destinados a uma audiência limitada, pelo que as primeiras edições
raramente atingem os 1000 exemplares a nível mundial. O investimento para uma
nova edição é muito grande, e o tempo de recuperação desse investimento é muito
longo. Por isso, raramente se publicam segundas edições: quem comprou a
primeira, tudo bem, quem não conseguiu comprar, temos pena…
O nível de
investimento necessário para a edição de um livro exige, normalmente, a
participação de uma empresa ou entidade investidora, que, tendo muito a ganhar
ou a perder no processo, se esforçará por garantir a qualidade do produto, para
que este atinja, na perspectiva do cliente potencial, o maior valor possível.
Um livro que o potencial cliente veja como “bom”, de um autor de credibilidade
estabelecida, editado por uma empresa prestigiada pela história das suas
edições, poderá ser vendido por um preço superior, e o investimento inicial
poderá ser recuperado mais rapidamente. Assim, o interesse económico do próprio
investidor torna-se uma garantia de qualidade.
E a informação na net?
Tendo-se tornado
um meio incontornável de contacto entre pessoas, permitindo a comunicação e a
troca de informação entre aqueles que, espalhadas pelo mundo, partilham os
mesmos interesses, a internet tornou-se, também, um esgoto a céu aberto onde
falsidade, desinformação e manipulação flutuam num caldo nojento de insulto, mentira
e ignorância.
É fácil
compreender porque isto acontece.
Comecemos por lembrar
que os conteúdos na net não estão sujeitos a nenhuma lei nacional ou
internacional: os interesses económicos dos produtores de conteúdos e dos
fornecedores de serviços de net ditaram que esta não seja auditada, que não
haja confirmação independente da correcção e veracidade dos conteúdos. Graças a
isso, cada um publica o que quer ou mais lhe convém, e não tem de prestar
contas a ninguém.
As notícias dos
últimos tempos mostram como países e organizações têm aproveitado esta ausência
de regulação para, através da publicação e disseminação de falsidades, travar
guerras assimétricas não-convencionais contra outros países e organizações, com
quem, teoricamente, estão em Paz.
A vaidade e a
ignorância de muitos dos particulares que publicam na net fazem o resto:
qualquer ignorante pode criar um site ou página com um nome que inspira
credibilidade, qualquer imbecil pode publicar uma idiotice, qualquer cretino
transforma opinião pessoal em verdade publicada.
Na net, a verdade
e a mentira parecem iguais.
Quer isto dizer
que considero que tudo quanto está na net é mentira?
Não: nos (poucos)
temas que, graças a uma instrução formal de nível superior e a longo historial
de recolha e análise de informação e sua discussão com especialistas reconhecidos,
considero que domino encontro muita informação interessante e correcta na net.
Mas também encontro muito disparate.
A questão não se
coloca, portanto, nas áreas de conhecimento que domino e onde tenho condições
para avaliar a qualidade da informação a que acedo: o problema real põe-se
exatamente nas áreas em que, por não as dominar, procuro informar-me. Se já sei
que, nos assuntos que conheço, muito do publicado é disparate, tenho de admitir
que tal também acontecerá em outros temas, onde, por ignorância, não serei
capaz de destrinçar o que é verdade do que é mentira.
Alguns sites são
auditados: as publicações nos sites das revistas técnicas são sujeitas à
avaliação de referee boards e inspiram mais confiança. Estes sites
existem, mas são, infelizmente, uma ínfima minoria na net. E não são gratuitos:
exigem subscrições pagas!
O caso da Wikipaedia
E assim, a título
de exemplo, chego ao site mais utilizado para obtenção de informação: a
Wikipédia.
Contribuo
ocasionalmente para a Wikipédia com doações financeiras, e uso-a com
frequência, mas, mesmo aí, procuro confirmação do que lá vejo. Porque, apesar
de ser uma estrutura auditada, a Wikipédia também tem informação falsa…
Durante vários
anos, uma entrada na Wikipédia descrevia a Guerra do Bicholin, uma guerra travada
na Índia entre o Império português e o império Maharatta durante a década de
1640. Este conflito não era referido em nenhum dos livros até então publicados.
Explicavam-se as causas políticas da guerra, descreviam-se as acções e forças
militares envolvidas e inventariavam-se baixas e perdas e ganhos de território.
Terminava-se com as acções diplomáticas que tinham posto fim ao conflito. A
entrada incluía uma lista das referências onde tinha sido recolhida a
informação utilizada para a elaboração do artigo.
Era tudo mentira.
Não houve, nesse
local e nessa época, nenhuma guerra entre os portugueses e os Maharattas. Não
tinha havido baixas nem mudanças territoriais, e, não tendo havido guerra, não
tinha havido processo de Paz. Todas as referências listadas no artigo eram
falsas ou circulares.
Vários
investigadores portugueses denunciaram a entrada como falsa, mas, infelizmente,
a empresa contratada pela Wikipédia para auditar os seus conteúdos está na
América, e, para ela, o conhecimento dos portugueses não era relevante. Foi
necessário esperar vários anos até que um americano mostrasse que tudo aquilo
era um disparate para o artigo ser retirado. Aqueles que, durante esse período,
leram a entrada sobre a Guerra de Bicholin (e que não sabem que o artigo foi
retirado por ser falso) continuarão convictos de que, em 1640, os portugueses
combateram os poderosos Maharattas com os resultados que a Wikipédia referia.
Lembrando o
centenário do nascimento da saudosa Amália: tudo isto existe, tudo isto é
triste…
Pelas razões
acima elencadas, a probabilidade de isto acontecer num livro, existindo, é
baixíssima.
As minhas conclusões
Termino
enunciando os meus princípios na busca de informação:
1 - Toda a
informação recolhida deve ser sujeita a crítica e confirmada através de várias
fontes diferentes e de discussão com quem mais sabe sobre cada assunto.
2 - A informação
publicada em livros é sempre mais credível que a publicada na net.
3 - Os livros são
o melhor investimento para quem quer saber mais.
Expus as razões
heurísticas que apoiam a escolha dos livros como fonte principal de informação,
mas existem outras, mais nos domínios da afectividade e sensualidade.
Um livro é um objecto: o peso, o toque, o próprio cheiro do papel e das
tintas permitem uma relação ao nível dos sentidos, uma relação no campo do
concreto, impossível de estabelecer com imagens fugazes no mesmo ecrã que nos
mostra as notícias, a publicidade ou as previsões meteorológicas.
O livro é,
finalmente, portátil: podemos consultá-lo na poltrona, na cama, na casa de
banho ou na paragem do autocarro. Mais: para o utilizarmos ele não precisa de
ter a bateria carregada ou de estar ligado à tomada… Bem mais práctico que
qualquer computador, por muito portátil que seja.
Para além de
graves problemas para todos nós, o ano de 2020 também está trazendo coisas
boas: está a ser pródigo em edições e anúncios de edições de novos livros sobre
orquídeas.
Nos próximos posts
apresentarei algumas das novidades editoriais de recentes, e, quando tal fôr
possível, a minha opinião sobre cada uma.
Vale!

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