Querido Primo:
Espero que esta te vá encontrar bem de saúde, tal como os teus, que nós por cá vamos indo na Graça de Deus.
Escrevo-te mais para dar notícias da Avó Januária, porque novidades não temos.
Ela está rija e vai comendo bem, mas, desde que lhe deu aquela coisa do Alzéimer ficou muito paradita: passa o tempo na cadeirinha dela a fazer ronda das janelas, sempre à procura do Solinho. Coitada: deve saber-lhe bem a luz e o calorzinho...
Aliás foi por isso que me deu uma ideia: lembras-te daquela orquídea que eu tinha na janela do lava-louças? Pois a pobre não apanhava muita luz e estava sempre com um ar fraquito, de maneiras que lembrei-me de a montar na cabeça da Avó! Eu tenho visto na internete e nos ôrquechópes que esta coisa das montagens faz maravilhas a tudo, e resolvi experimentar. Pelo menos luz e calor não lhe vão faltar...
Primeiro pensei em prendê-la com arames ou fio de pesca, mas o parvalhão do teu afilhado pôs-se com coisas que eu ainda esganava a Avó e tive que desistir. Este meu filho é mesmo palerma!
No fim, cortei uns colãs velhos às tiras e amarrei-lhe aquilo à volta das orelhas e do pescoço. Talvez ainda troque por fitas de cetim, que também não ficavam mal.
Tive um bocado de medo que a orquídea ficasse muito amarfanhada à noite, mas como a Avó tem que dormir meio sentada por causa daquela pieira que ela tem, nem sequer correu mal. O único problema foi pr'aí na segunda semana que ela queixava-se um bocadinho de qualquer coisa, mas depois descobri que era uma raiz que se lhe tinha metido numa orelha e agora já está tudo bem.
Não ficou mal, e a velha até fica bem patusca com aquilo encavalitado no cocoruto!
Vamos a ver se dá flôr lá para o Verão: a Avó vai ser um sucesso! Pode ser que vejas quando vieres cá pelas festas.
E por agora não tenho mais para te mandar. Recebe um beijo desta tua prima que tanto te gosta e que se assina:
Maria da Purificação
P.S.: Táva-se a ver que o Natalino tinha que arranjar complicações: ficou tão entusiasmado com esta coisa das montagens que foi agora ao Lidel comprar mais uma daquelas orquídeas da promoção para montar na coleira do Bóbi, e já anda a falar em montar um pinheiro no depósito da motorizada. Onde é que eu estava com a cabeça quando arranjei um marido assim...
Tuesday, March 20, 2018
Sunday, March 18, 2018
Visto e ouvisto (com estes que a terra há-de comer...)
Crime scene
Um Garden Center, uma cliente, o responsável pelas orquídeas e yours truly como testemunha involuntária.(Nomes fictícios para proteger a identidade dos protagonistas)
O diálogo
A cliente:- Ó João Luís: a minha Cattleya pimpampum (era uma espécie das que são um pouco menos fáceis) morreu.
Já é a segunda que me morre.
O responsável:
- Ó Dona Pulquéria, não há problema:
manda-se vir mais!
Análise da cena
A situação ilustra um problema frequente:"Não tenho jeito para Masdevallias (ou Catasetums, ou outra coisa qualquer). Estou farto de tentar e morrem-me sempre".
Uma frase frequentemente atribuída a Albert Einstein (mas não confirmada) diz que ele definia loucura como "fazer repetidamente a mesma coisa e esperar resultados diferentes".
Se eu não sei como fazer qualquer coisa que desejo, então tenho que ir aprender antes de tentar.
Será que só a mim é que isto parece evidente?
A heurística...
Uma palavra esquisita para um conceito muito simples:Se eu preciso de informação, onde a hei-de procurar?
Da mesma forma que, se tiver um problema na canalização, não me serve de muito ir fazer perguntas ao farmacêutico, também, neste nosso caso das orquídeas, não ganho grande coisa em ir recolher a opinião de pessoas que têm resultados tão maus comos os meus ou que nunca tiveram experiência com a minha planta-problema. E isto apesar de essar pessoas estarem frequentemente empenhadíssimas em dar a sua "opinião" (o Google faz maravilhas...).
A estratégia que eu proponho é identificar quem cultiva bem as plantas que me dão problemas e, depois, pedir a sua ajuda.
Não é perguntar em que sítio as tem nem que substrato usa: é contar o meu problema, as minhas (más) experiências, descrever as minhas condições de cultura e procurar conselhos para resolver o problema na minha situação específica.
Outras estratégias
Reconheço que há outras opções, e confronto-me frequentemente com dois tipos de abordagem, que designo genericamente por "técnica da raspadinha" e "se Deus quiser".A raspadinha
Ao que me dizem (eu não jogo), há horas felizes!
Parece-me, no entanto, ilógico pensar que, continuando a comprar as mesmas plantas que sempre consegui matar, uma delas sobreviva só "porque sim".
Se eu reconheço um problema (Não sei o suficiente para manter estas plantas) parece mais sensato ir aprender mais antes de tentar outra vez.
Se Deus quiser
Eu sei: a Fé move montanhas, e tudo o que pedirmos nos será concedido...
Uma vez mais, nada referindo a Doutrina acerca dos conhecimentos orquidológicos da Mãe de Deus, não acho que mesmo uma peregrinação a Fátima augure nada de bom para aquelas plantas que nunca fui capaz de manter vivas.
Proponho que se tente aprender com quem realmente sabe antes de se ir incomodar Deus Pai com ninharias.
Conclusão
Cada um sabe das suas finanças, mas cada planta que matamos é uma planta que sai do mercado, e que deixa de estar disponível para outros orquidófilos que, por saberem mais que nós, conseguiriam cultivá-la.Eu gostaria de fazer uma pergunta à cliente da história (verídica) referida no ínicio. Seria assim:
- Senhora Dona Pulquéria: como se define enquanto orquidófila? Acha-se uma principiante? Uma orquidófila experimentada? Uma especialista?
Estou certo de qual seria a resposta:
- Não! Eu sou um serial killer!
Termino com outra citação, esta sim, confirmada, de Albert Einstein:
"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana; e ainda não estou completamente certo quanto ao Universo".
Post scriptum
Fiquei surpreendido por o responsável pelas plantas que, hipoteticamente, deverá saber o suficiente para poder ensinar, não se ter esforçado por esclarecer o que tinha realmente acontecido às pobres defuntas, nem tentado perceber em que condições eram mantidas, quais dessas condições poderiam ser responsáveis pelos óbitos sucessivos e que medidas se poderiam tomar para evitar futuras fatalidades.
Haja dinheiro!
Vale!
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