Monday, December 21, 2020

 

Tortura chinesa


O assunto que gostaria hoje de abordar é a qualidade de uma colecção de orquídeas. Sendo o tema um pouco provocatório, e podendo incomodar alguns de nós, peço-vos que acreditem que a minha intenção é boa (como todas as outras que enchem o caminho do Inferno).

A realidade é que, por muito afortunados que sejamos, o nosso espaço de cultivo é sempre finito, e a maioria de nós cultiva em espaços muito limitados. Isto limita o número de plantas que podemos ter na colecção. Se ocuparmos o nosso espaço com plantas medíocres, não teremos espaço para plantas boas…

Mas o que é uma colecção?

O conceito varia com cada pessoa, mas podemos identificar desde já uma posição muito frequente: uma colecção é um conjunto de “coisas”. Uma colecção de orquídeas é um conjunto de orquídeas. Ponto. Quem tem esta visão, pensa também, por norma, que uma colecção é tanto melhor quando mais “coisas” incluir. Uma colecção de 100 orquídeas é melhor que uma colecção de 50 orquídeas.

Não subscrevo esta visão porque, para mim, uma colecção não é “um monte de coisas”, mas um conjunto organizado de elementos ligados por uma (ou várias) características comuns. Uma colecção, para mim, tem um tema.

Não quero com isto dizer que uma colecção tem de ser restrita a um só género ou grupo de géneros. Acharia interessantíssima uma colecção de, por exemplo, orquídeas do grupo “Cattleya”, ou orquídeas do Brasil, ou do Sudeste asiático, ou até, porque não? de orquídeas “que consigo cultivar no meu quintal”. Mas a colecção deve ter um tema, uma “história”.

Quem tem amigos filatelistas sabe que, com os milhões de selos que já foram editados, cada um colecciona apenas um ou poucos temas: selos de Portugal, ou selos das Colónias, ou selos com borboletas, blocos comemorativos, enfim…

O que é uma boa colecção? 

Arrumada para já a questão do tema, há outros critérios que têm de ser considerados, e, logo à partida, entendamos o conflito entre quantidade e qualidade.

Que fique claro que, para mim, uma “grande” colecção não se mede pelo número de vasos. Ter duzentos ou quinhentos vasos de Cattleyas, ou Cymbidiums, ou Dendrobiums não faz uma boa colecção. Vemos com frequência nas "colecções" de quem partilha esta visão que muitos vasos são ocupados pelo mesmo híbrido ou espécie (o mais resistente, o que cresce e se propaga melhor…), que as plantas estão sistematicamente em mau estado, roídas pelas pragas e crivadas de doenças, e que há muitas variantes ou tipos importantes que não estão representadas.

Eu advogo que o interesse de cada colecção reside na sua “história” (o tal tema ou temas) e na qualidade de cada uma das plantas que a constituem. Quer tenhamos muito ou pouco espaço podemos ter uma Grande colecção. Basta para isso que as plantas da nossa colecção tenham uma razão para fazer parte dela, estejam bem cultivadas, e sejam clones bons da espécie ou híbrido que representam.

Mas como se constrói uma Boa colecção? Para isto precisamos de informação. Precisamos de saber, para qualquer espécie ou híbrido que tenhamos decidido juntar à colecção, quais são as características que definem uma planta “boa”. Precisamos de saber isto para, ao olhar para uma planta que podemos adquirir, decidir se ela é boa, e compramos, ou se é um clone medíocre, e esperamos que apareça um melhor.

Só assim conseguimos evitar encher o nosso espaço de cultivo com plantas que não prestam, ocupando o espaço e os recursos financeiros que seriam necessários para comprar um clone muito bom, que faria a nossa colecção subir de nível.

Livrinhos, livrinhos… que faria eu sem eles!

O nome de Leopold Sacher-Masoch ficou famoso por ter sido utilizado como base para a palavra “masoquismo”, a busca do prazer pelo sofrimento. Deixando de lado as expressões mais cabeludas da coisa, vejo-me obrigado a concluir que, mesmo nunca o tendo suspeitado, também sofro deste problema.

Vem este assunto à conversa pela enorme satisfação que tive quando, recentemente, e com a ajuda preciosa de uma amiga Taiwanesa, consegui gradualmente adquirir, no mercado taiwanês de livros usados, um conjunto livros editados em Taiwan com o singelo título “Paphiopedilum in Taiwan”. Os livros são editados pela Taiwan Paphiopedilum Society, fundada há mais de 20 anos, e mostram as plantas que vão sendo expostas nas reuniões da sociedade. Têm sido publicados vários volumes, e a série já vai no Paphiopedilum in Taiwan VI.

Não consegui o primeiro, editado há muitos anos e ainda a preto e branco, mas se aparecer algum, não me escapa!








São livros de excelente qualidade, em formato ligeiramente maior que A4, cerca de 160 páginas e capas rígidas, todos a côres. O texto é em Mandarim (o que, para mim, é Chinês) mas as fotografias, apesar de relativamente pequenas, são a côres, e às centenas em cada volume. As legendas das fotografias incluem o nome da espécie ou do híbrido (e seus progenitores) em caracteres ocidentais, pelo que é simples identificar cada planta. Também incluem as dimensões de cada segmento da flôr e o nome do hibridista que expôs a planta. As fotografias são todas tiradas pela Sociedade nas suas exposições, o que evita as tentações de malabarismos com o Photoshop.

Para além destes seis volumes foram também já editados dois volumes ainda mais horríveis: não as plantas que foram expostas, mas apenas aquelas que foram premiadas… Páginas e páginas de fotografias do melhor que os hibridistas taiwaneses conseguiram produzir!





Vejam bem o meu sofrimento: Taiwan é, hoje, o centro mundial do cultivo, selecção, line breeding e hibridação de Paphiopedilum, e um entusiasta do género, ao ver todas aquelas plantas espantosas, sente-se como um guloso esfomeado amarrado à parte de fora da montra de uma pastelaria!

Nenhum viveirista consegue obter boas plantas sem bons progenitores, e os Taiwaneses são mestres em procurar e seleccionar clones excepcionais de cada espécie para usar nos seus programas de line breeding ou hibridação. As fotos nos livros não mostram apenas a descendência de cada cruzamento, mas também os seus extraordinários progenitores. 

Não comprei aqueles livros para me sentir infeliz ou invejoso, mas para ver como são os melhores Paphs que hoje se produzem. Este conhecimento ajudar-me-á a avaliar as plantas da minha colecção, a ver quais são boas e quais são fraquinhas (ou más…) e a decidir em que direcção devo orientar as minhas próximas compras.

Olhar para, por vezes, páginas inteiras de clones seleccionados da mesma espécie ou de frutos de um mesmo cruzamento ensina-nos muito: mesmo nesta situação, em que são apenas plantas expostas por profissionais e grandes entusiastas, e onde, portanto, não aparecem os clones medíocres, aprendemos o quanto pode variar uma espécie ou híbrido.






Os livros de plantas premiadas mostram-nos como os verdadeiros especialistas avaliam a qualidade de cada clone: é muito enriquecedor tentar perceber porque é que a este clone foi dada uma medalha de prata, enquanto àquele foi dada a medalha de ouro. 

Finalmente, estes livros mostram-nos o futuro: as plantas provenientes das novas linhas de hibridação. Para as nossas colecções, e para a gestão das nossas compras, é completamente diferente eu saber ou não reconhecer o que são os novos híbridos quando eles começarem a aparecer no mercado.




 Enfim: é muito didático, mas também é uma tortura!


Dizia o masoquista: Bate-me! Bate-me!

Respondia o sádico: Não...

 

Vale

Wednesday, December 9, 2020

 Orquídea da mata

Resulta esta minha reflexão de um post no Facebook e um fragmento de conversa ouvido por acaso numa das nossas exposições. Ambos aconteceram no final do ano passado.

Nessa conversa entreouvida, um orquidófilo português dizia a outro: “… é como eles fazem no Brasil”.

Quanto ao tal post, partilhado num dos grupos portugueses do Facebook, tinha sido publicado por uma Brasileira, e, acompanhado de uma foto, tanto como me consigo lembrar, rezava: “Qual o nome dessa orquídea que meu marido achou na mata?”


A "sabedoria" que vem de longe

Mais ou menos ao mesmo tempo, comecei a ver em grupos Facebook de orquidófilos portugueses anúncios a cursos sobre cultivo de orquídeas partilhados por cultivadores brasileiros. Lembrei-me logo da senhora cujo marido tinha achado uma orquídea na mata…

As orquídeas que queremos cultivar são espécies exóticas (ou híbridos entre elas): são oriundas de áreas distantes e com climas diferentes. Os problemas que o cultivador enfrenta devem-se às diferenças entre as condições ambientais em que cada espécie vive na sua área de distribuição natural e as prevalentes no local onde as pretendemos cultivar. Estes problemas obrigam-nos a desenvolver técnicas de cultivo que nos permitam compensar as diferenças de temperatura, luminosidade e humidade ambiente. Cultivar orquídeas no Brasil ou na Tailândia não é o mesmo que as cultivar em Portugal!

O facto de um cultivador brasileiro postar fotos de excelentes plantas de Cattleya ou Catasetum amarrados a árvores não significa que eu vá a correr amarrar os meus ao pinheiro, nespereira ou loendro que cresce no meu jardim. Quem já viajou pelo Oriente ficou certamente impressionado pelas enormes plantas de Dendrobium ou híbridos de Vanda que crescem luxuriantes agarradas às árvores de avenida ou mesmo em grandes vasos de cimento ao longo dos passeios.

Será essa a melhor forma de cultivar orquídeas em Portugal?

A resposta a esta questão exige que se considerem dois pontos:

Desde há relativamente pouco tempo vi aumentar nos grupos do FB os posts de quem prende orquídeas às árvores nos eu quintal. Ao que sei, até chegaram a fazer-se workshops sobre o tema. Penso que será importante distinguir entre cultivar uma orquídea e ter uma orquídea que sobrevive.


O que significa "cultivar" uma orquídea 

Idealmente, uma orquídea bem cultivada é uma planta limpa e saudável, que cresce de ano para ano, dá pseudobolbos ou crescimentos gradualmente maiores, floresce cada vez mais, com mais e maiores flores. Verdade?

Uma orquídea que não cresce, ou diminui gradualmente de tamanho, dando pseudobolbos ou crescimentos cada vez menores, florindo cada vez menos até deixar de florir, e que está permanentemente cheia de doenças e pragas não está a ser cultivada: está a ser assassinada.

Porque as orquídeas fazem tudo devagar, incluindo morrer, uma tal planta até pode durar uns anos, mas tem o destino traçado desde a hora em que o dono resolveu fazer aquilo…


Nem toda a informação é igualmente útil

A outra questão é mais simples de analisar: a senhora brasileira tinha em casa uma orquídea que o marido tinha “achado na mata”. Nada no post sugeria que a mata era longe do sítio onde ela morava. Ela não cultivava aquela planta: mantinha-a, e mantinha-a nas mesmas condições ambientais do habitat natural da espécie.

Esta é a vantagem dos orquidófilos que vivem em países tropicais: enquanto quiserem manter as espécies locais, têm 90% do trabalho feito; não precisam de estufas, nem de aquecimento, nem de controle de humidade. Um pouco de sombra chega bem. Essas plantas, que aqui seriam orquídeas exóticas e lá são orquídeas nativas, sobrevivem com facilidade. Difícil mesmo é cultivá-las aqui…

Vejam bem: eu sou um jardineiro de mão-cheia! Basta vir ao meu terreno e ver que viçosos estão os meus cardos e urtigas…

Eu consulto frequentemente outros orquidófilos para tentar aprender. É-me útil perceber o que fazem e como fazem para cultivar plantas com que tenho pouca experiência ou onde não tenho obtido resultados tão bons como desejaria.

Para plantas menos conhecidas, e para as quais há pouca informação publicada, consulto também amigos ou contactos que vivem nas zonas de origem dessas espécies, para saber as condições em que crescem na Natureza. Mas não tento reproduzir as condições em que eles as cultivam nas suas estufas ou jardins. Isso não é relevante: eu quero cultivá-las em Portugal, não em Taiwan ou na Colômbia...

A informação que eu procuro só pode ser obtida junto de quem cultiva com bons resultados as espécies que eu quero cultivar em condições muito semelhantes àquelas que eu posso fornecer.

Que fique claro que eu sei que existem excelentes cultivadores em países tropicais, mas não é por alguém cultivar Cattleyas no Brasil ou Dendrobium na Tailândia que eu devo tentar imitar as suas técnicas.

É muito diferente cultivar orquídeas tropicais numa zona tropical e tentar cultivar orquídeas num clima temperado, a milhares de quilómetros de distância. São outros problemas, que exigem outras técnicas de cultivo.


As técnicas de cultivo

No Verão do ano passado, visitei o jardim botânico de Bona (que vale bem a visita!) e, entre muitas outras plantas, apreciei a colecção de plantas mediterrânicas que lá se cultivam.

Foi uma surpresa ver sobreiros adultos com vários metros de altura cultivados em vaso (de mais de 1,5 m de diâmetro), mas, pensando melhor, compreendi que, devido às diferenças climáticas, aquelas plantas que eu via no exterior em Setembro tinham de estar protegidas durante muitos meses em cada ano. Aqueles vasos, que pesam várias toneladas, são levados por um monta-cargas para uma estufa quando o frio aperta, e só voltam para o exterior na Primavera.

Enquanto nós podemos facilmente cultivar um sobreiro no quintal, a equipa daquele jardim botânico tinha sido obrigada a desenvolver técnicas que lhe permitissem conservar as plantas num clima muito diferente do da sua origem. O que nós fazemos aqui não seria suficiente.

As técnicas de cultivo evoluem para fazer face às dificuldades criadas pela diferença entre as condições em que a planta vive no seu habitat natural e aquelas que existem no sítio em que eu a quero cultivar. Se eu quero aprender a sério, devo procurar aqueles que cultivam bem as plantas que eu gostaria de ter em condições semelhantes às minhas.

É igualmente evidente que, aqui em Portugal, ninguém no seu perfeito juízo iria querer cultivar sobreiros adultos em vaso!

Ai, desculpem: há a malta dos Bonsai…

Só me meto em confusões…

 

Vale