Sunday, January 10, 2021

Um ano rico em livros

Os Paphiopedilum são um dos mais populares grupos de orquídeas, e muito se tem escrito sobre eles. Desde o trabalho fundamental de Karasawa e Saito logo no início da década de 1980, tanto Phillip Cribb, Pat Cash e Harold Koopowitz, como Guido Braem e William Cavestro publicaram monografias sobre o género (por vezes com segundas e mesmo terceiras edições revistas e actualizadas), e Leonid Averyanov publicou um excelente volume sobre os Paphiopedilum do Vietnam. São livros bastante diferentes quer em organização quer em valor científico, mas todos eles são úteis para um entusiasta. Enquanto amante destas orquídeas, e apesar de preferir a abordagem sistemática e taxonómica de Braem, que adoptei para a minha colecção, não perco uma oportunidade de me informar sobre as opiniões de outros autores e tenho vindo a adquirir os novos livros que vão sendo publicados.

Eis que chega mais um: Olaf Gruß cedo se interessou pelos Paphiopedilum e desde há muito os observa na Natureza. Para além de muitos artigos em revistas especializadas, tinha já publicado um livro sobre formas albinas neste género, outro sobre híbridos de P. rotschildanum, e apresenta agora o primeiro de uma série monográfica de três volumes sobre o Género Paphiopedilum.


              Paphiopedilum - Sudöstasiatische Frauenschuhe (Band 1)





Não é um tratado de sistemática

É de salientar que este não é um livro sobre taxonomia ou sistemática, e a classificação utilizada é, como sempre, passível de críticas.

Para muitos botânicos (entre os quais me incluo) a utilização alargada de nomes latinos ou latinizados para categorias subespecíficas (variedade, forma) é questionável sob o ponto de vista taxonómico, dado o nosso reduzido conhecimento das áreas de distribuição e da variabilidade natural de cada espécie no seu habitat natural.

O botânico por formação sabe que há variabilidade natural dentro de cada espécie, e que, dentro de certos limites que são típicos de cada espécie, aparecerão indivíduos com maiores ou menores dimensões, tépalas mais curtas ou mais longas, côres ou padrões mais fortes ou mais ténues, etc. Mais: o botânico sabe que o que nós observamos são os caracteres visíveis (fenotípicos), que resultam da expressão do genoma da planta, mas que essa expressão é regulada por uma grande variedade de factores, muitos deles relacionados com o ambiente (factores quer epigenéticos, quer ambientais). Se esses factores mudarem, mudam os caracteres que nós observamos. A mesma planta (não apenas a mesma espécie: o mesmo indivíduo) cultivada no Porto ou no Funchal poderá dar flores diferentes, folhas mais ou menos longas, etc.

Ora se não chamamos Homo sapiens var. brasiliensis aos sul-americanos, e ninguém até agora descreveu o Homo sapiens f. brad-pittius, será que vale a pena estar a criar nomes para cada variação que vemos num Paphiopedilum?

Para um botânico, claro que não, mas, para um coleccionador, claro que sim!

O coleccionador a sério não quer ter um Paphiopedilum insigne. Quer um “daqueles” com as pintas fininhas, outro “daqueles” com as pintas grossas, com muitas pintas, com poucas pintas, mais verde, mais amarelo, e, já agora, um como o do Senhor Alberto, que é tão bonito… Claro que, se cada uma dessas variações tiver um nome, as coisas tornam-se mais simples e as colecções mais fáceis de organizar.

Os comerciantes perceberam isto há muito, e são os grandes responsáveis pela multiplicação de sinónimos e espécies, subespécies, variedades e formas espúrias ou duvidosas, com que atraem os coleccionadores mais fanáticos. 

 

Um livro muito útil

O livro de Olaf Gruß é um livro voltado para os coleccionadores e cultivadores do Género. Trata como válidas “espécies“ ainda muito pouco conhecidas e utiliza muitas categorias taxonómicas infraespecíficas. Penso que, apesar de isso poder ser visto como um defeito por um botânico por formação, para muitos coleccionadores será um dos seus grandes atractivos, por “dar nome” a variantes que ainda não obtiveram o reconhecimento de alguns outros autores.

Quanto a Gruß, à medida que se fôr acumulando conhecimento sobre algumas destas populações ainda pouco compreendidas, algumas das suas opções virão a ser confirmadas, e, possivelmente, outras virão a ser negadas, como acontece com as opiniões de qualquer autor.

Ao contrário das monografias anteriores, este livro não pretende apenas descrever as espécies, mas também lista os híbridos primários envolvendo cada espécie, ilustrando alguns deles. É uma inovação que pode tornar este novo livro muito útil, mas, que, naturalmente, também levanta algumas questões: porque é que são ilustrados alguns híbridos e não outros? Penso que a resposta é simples: muitos híbridos primários foram feitos e registados por amadores, que produziram poucas plantas de que poucas ou nenhuma sobreviveram. Em alguns (muitos) destes casos é muito difícil, ou mesmo impossível, encontrar fotografias fidedignas.

Em contacto directo, o Autor disse-me que o terceiro volume será dedicado aos híbridos. Espero-o com impaciência!


Organização

Este primeiro volume está organizado de uma forma que podemos considerar "tradicional":

Ao prefácio e agradecimentos segue-se uma série de capítulos que tratam da história do Género, da sua distribuição geográfica e da localização das diferentes espécies e uma discussão da morfologia dos Paphiopedilum. Segue-se-lhes uma história da nomeclatura do género ao longo do tempo e algumas regras de nomenclatura que muito ajudam a compreender o processo e a razão pela qual há tantas controvérsias.

Esta secção, que podemos designar de "introdutória" termina com um capítulo sobre o cultivo de Paphiopedilum




O resto deste primeiro volume é um tratamento, espécie por espécie, das espécies de Paphiopedilum incluídas nos subgéneros (segundo a classificação de Braem) Parvisepalum, Brachypetalum, (os "de flores redondas"), Polyantha (os multiflorais de floração simultânea) e Cochlopetalum (as espécies de floração sequencial). As espécies dos subgéneros Paphiopedilum, Sigmatopetalum e Megastaminodium serão tratadas no segundo volume, e o terceiro será dedicado aos híbridos, quer naturais quer artificiais, a uma revisão da hibridação e a actualizações.




Se podemos considerar a parte introdutória como "normal", a cobertura das espécies é muito inovadora: a riqueza em fotografias é impressionante (perto de 100 fotos só para o Paphiopedilum bellatulum, variações, etc) e confronta-nos com a espantosa variabilidade de, pelo menos, algumas espécies.




A secção dedicada a cada espécie está organizada de uma forma muito clara: Nome e sinónimos da espécie, distribuição geográfica, ecologia, clima no habitat natural, história, descrição da espécie, variantes da espécie, controvérsias sobre a classificação e condições de cultura da espécie. Termina com uma listagem completa dos híbridos primários envolvendo a espécie e ilustrações de alguns deles. 

Parece o livro perfeito. E, no entanto...


Não há bela sem senão…

Esta obra é editada pela excelente revista alemã OrchideenZauber, que nos propõe uma grande lista de livros e publicações sobre temas muito variados, desde as orquídeas aos aquários, e é editado em língua alemã.

Para mim, é mais um livro imperdível, mas compreendo que a língua em que está escrito intimide um pouco. Será uma oportunidade para eu sacudir um pouco o pó do meu Alemão, mas reconheço que a língua em que é publicado constituirá um obstáculo à maior difusão das opiniões do autor. Pode, talvez, ser um estímulo para quem quer desenferrujar o seu alemão ou até aprendê-lo de novo. Não é uma língua tão difícil quanto se pensa: na Alemanha, até as crianças pequeninas a falam...

Com 2200 fotografias em cerca de 500 páginas só no primeiro volume, promete muito! Se os restantes volumes estiverem ao mesmo nível, será, do ponto de vista do coleccionador e cultivador, o melhor livro alguma vez publicado sobre este género. 



Excelente qualidade de produção

A qualidade de produção é excelente. É um livro grande e volumoso, com óptima impressão, e, ao contrário do que é a norma, produzido num papel absolutamente baço. Este papel não dá às fotografias o realce que se obtem com um papel brilhante, mas torna a leitura ou consulta mais cómoda e, visualmente, menos cansativa.

  


As informações fundamentais são as seguintes:

Título: Paphiopedilum - Sudöstasiatische Frauenschuhe Band 1

Autor: Olaf Gruß

Editor: Orchideenzauber-Verlag

Texto: Alemão

Formato: 30 x 22,5 x 4 cm (capa rija)

530 páginas

2200 ilustrações a côres

Preço: 120€

Site: www.orchideenzauber.eu

Email: djs@orchideenzauber.eu

 


 Vale!

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