Um ano rico em livros
Os Paphiopedilum
são um dos mais populares grupos de orquídeas, e muito se tem escrito sobre
eles. Desde o trabalho fundamental de Karasawa e Saito logo no início da década
de 1980, tanto Phillip Cribb, Pat Cash e Harold Koopowitz, como Guido Braem e William
Cavestro publicaram monografias sobre o género (por vezes com segundas e mesmo
terceiras edições revistas e actualizadas), e Leonid Averyanov publicou um
excelente volume sobre os Paphiopedilum do Vietnam. São livros bastante
diferentes quer em organização quer em valor científico, mas todos eles são
úteis para um entusiasta. Enquanto amante destas orquídeas, e apesar de preferir
a abordagem sistemática e taxonómica de Braem, que adoptei para a minha
colecção, não perco uma oportunidade de me informar sobre as opiniões de outros
autores e tenho vindo a adquirir os novos livros que vão sendo publicados.
Eis que chega mais um: Olaf Gruß cedo se interessou pelos Paphiopedilum e desde há muito os observa na Natureza. Para além de muitos artigos em revistas especializadas, tinha já publicado um livro sobre formas albinas neste género, outro sobre híbridos de P. rotschildanum, e apresenta agora o primeiro de uma série monográfica de três volumes sobre o Género Paphiopedilum.
Paphiopedilum - Sudöstasiatische Frauenschuhe (Band 1)
Não é um tratado de sistemática
É de salientar que este não é um livro sobre taxonomia ou sistemática, e a classificação utilizada é, como sempre, passível de críticas.
Para muitos botânicos (entre os quais me
incluo) a utilização alargada de nomes latinos ou latinizados para categorias subespecíficas
(variedade, forma) é questionável sob o ponto de vista taxonómico, dado o nosso
reduzido conhecimento das áreas de distribuição e da variabilidade natural de
cada espécie no seu habitat natural.
O botânico por formação sabe que há variabilidade natural dentro de cada espécie, e que, dentro de certos limites que são típicos de cada espécie, aparecerão indivíduos com maiores ou menores dimensões, tépalas mais curtas ou mais longas, côres ou padrões mais fortes ou mais ténues, etc. Mais: o botânico sabe que o que nós observamos são os caracteres visíveis (fenotípicos), que resultam da expressão do genoma da planta, mas que essa expressão é regulada por uma grande variedade de factores, muitos deles relacionados com o ambiente (factores quer epigenéticos, quer ambientais). Se esses factores mudarem, mudam os caracteres que nós observamos. A mesma planta (não apenas a mesma espécie: o mesmo indivíduo) cultivada no Porto ou no Funchal poderá dar flores diferentes, folhas mais ou menos longas, etc.
Ora se não chamamos Homo sapiens var. brasiliensis aos sul-americanos, e ninguém até agora descreveu o Homo sapiens f. brad-pittius, será que vale a pena estar a criar nomes para cada variação que vemos num Paphiopedilum?
Para um botânico, claro que não, mas, para um coleccionador, claro que sim!
O coleccionador a sério não quer ter um Paphiopedilum insigne. Quer um “daqueles” com as pintas fininhas, outro “daqueles” com as pintas grossas, com muitas pintas, com poucas pintas, mais verde, mais amarelo, e, já agora, um como o do Senhor Alberto, que é tão bonito… Claro que, se cada uma dessas variações tiver um nome, as coisas tornam-se mais simples e as colecções mais fáceis de organizar.
Os comerciantes perceberam isto há
muito, e são os grandes responsáveis pela multiplicação de sinónimos e espécies,
subespécies, variedades e formas espúrias ou duvidosas, com que atraem os
coleccionadores mais fanáticos.
Um livro muito útil
O livro de Olaf Gruß é um livro voltado para os coleccionadores e cultivadores do Género. Trata como válidas “espécies“ ainda muito pouco conhecidas e utiliza muitas categorias taxonómicas infraespecíficas. Penso que, apesar de isso poder ser visto como um defeito por um botânico por formação, para muitos coleccionadores será um dos seus grandes atractivos, por “dar nome” a variantes que ainda não obtiveram o reconhecimento de alguns outros autores.
Quanto a Gruß, à medida
que se fôr acumulando conhecimento sobre algumas destas populações ainda pouco compreendidas, algumas
das suas opções virão a ser confirmadas, e, possivelmente, outras virão a ser
negadas, como acontece com as opiniões de qualquer autor.
Ao contrário das
monografias anteriores, este livro não pretende apenas descrever as espécies,
mas também lista os híbridos primários envolvendo cada espécie, ilustrando alguns deles. É uma inovação que pode tornar este novo livro muito útil, mas,
que, naturalmente, também levanta algumas questões: porque é que são ilustrados
alguns híbridos e não outros? Penso que a resposta é simples: muitos híbridos
primários foram feitos e registados por amadores, que produziram poucas plantas
de que poucas ou nenhuma sobreviveram. Em alguns (muitos) destes casos é muito
difícil, ou mesmo impossível, encontrar fotografias fidedignas.
Em contacto directo, o Autor disse-me que o terceiro volume será dedicado aos híbridos. Espero-o com impaciência!
Organização
Não há bela sem senão…
Esta obra é
editada pela excelente revista alemã OrchideenZauber, que nos propõe uma
grande lista de livros e publicações sobre temas muito variados, desde as
orquídeas aos aquários, e é editado em língua alemã.
Para mim, é mais um livro imperdível, mas compreendo que a língua em que está escrito intimide um pouco. Será uma
oportunidade para eu sacudir um pouco o pó do meu Alemão, mas reconheço que a
língua em que é publicado constituirá um obstáculo à maior difusão das opiniões
do autor.
Excelente qualidade de produção
As informações fundamentais são as seguintes:
Título: Paphiopedilum
- Sudöstasiatische Frauenschuhe Band 1
Autor: Olaf Gruß
Editor:
Orchideenzauber-Verlag
Texto: Alemão
Formato: 30 x
22,5 x 4 cm (capa rija)
530 páginas
2200 ilustrações a côres
Site:
www.orchideenzauber.eu
Email: djs@orchideenzauber.eu





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