Wednesday, December 9, 2020

 Orquídea da mata

Resulta esta minha reflexão de um post no Facebook e um fragmento de conversa ouvido por acaso numa das nossas exposições. Ambos aconteceram no final do ano passado.

Nessa conversa entreouvida, um orquidófilo português dizia a outro: “… é como eles fazem no Brasil”.

Quanto ao tal post, partilhado num dos grupos portugueses do Facebook, tinha sido publicado por uma Brasileira, e, acompanhado de uma foto, tanto como me consigo lembrar, rezava: “Qual o nome dessa orquídea que meu marido achou na mata?”


A "sabedoria" que vem de longe

Mais ou menos ao mesmo tempo, comecei a ver em grupos Facebook de orquidófilos portugueses anúncios a cursos sobre cultivo de orquídeas partilhados por cultivadores brasileiros. Lembrei-me logo da senhora cujo marido tinha achado uma orquídea na mata…

As orquídeas que queremos cultivar são espécies exóticas (ou híbridos entre elas): são oriundas de áreas distantes e com climas diferentes. Os problemas que o cultivador enfrenta devem-se às diferenças entre as condições ambientais em que cada espécie vive na sua área de distribuição natural e as prevalentes no local onde as pretendemos cultivar. Estes problemas obrigam-nos a desenvolver técnicas de cultivo que nos permitam compensar as diferenças de temperatura, luminosidade e humidade ambiente. Cultivar orquídeas no Brasil ou na Tailândia não é o mesmo que as cultivar em Portugal!

O facto de um cultivador brasileiro postar fotos de excelentes plantas de Cattleya ou Catasetum amarrados a árvores não significa que eu vá a correr amarrar os meus ao pinheiro, nespereira ou loendro que cresce no meu jardim. Quem já viajou pelo Oriente ficou certamente impressionado pelas enormes plantas de Dendrobium ou híbridos de Vanda que crescem luxuriantes agarradas às árvores de avenida ou mesmo em grandes vasos de cimento ao longo dos passeios.

Será essa a melhor forma de cultivar orquídeas em Portugal?

A resposta a esta questão exige que se considerem dois pontos:

Desde há relativamente pouco tempo vi aumentar nos grupos do FB os posts de quem prende orquídeas às árvores nos eu quintal. Ao que sei, até chegaram a fazer-se workshops sobre o tema. Penso que será importante distinguir entre cultivar uma orquídea e ter uma orquídea que sobrevive.


O que significa "cultivar" uma orquídea 

Idealmente, uma orquídea bem cultivada é uma planta limpa e saudável, que cresce de ano para ano, dá pseudobolbos ou crescimentos gradualmente maiores, floresce cada vez mais, com mais e maiores flores. Verdade?

Uma orquídea que não cresce, ou diminui gradualmente de tamanho, dando pseudobolbos ou crescimentos cada vez menores, florindo cada vez menos até deixar de florir, e que está permanentemente cheia de doenças e pragas não está a ser cultivada: está a ser assassinada.

Porque as orquídeas fazem tudo devagar, incluindo morrer, uma tal planta até pode durar uns anos, mas tem o destino traçado desde a hora em que o dono resolveu fazer aquilo…


Nem toda a informação é igualmente útil

A outra questão é mais simples de analisar: a senhora brasileira tinha em casa uma orquídea que o marido tinha “achado na mata”. Nada no post sugeria que a mata era longe do sítio onde ela morava. Ela não cultivava aquela planta: mantinha-a, e mantinha-a nas mesmas condições ambientais do habitat natural da espécie.

Esta é a vantagem dos orquidófilos que vivem em países tropicais: enquanto quiserem manter as espécies locais, têm 90% do trabalho feito; não precisam de estufas, nem de aquecimento, nem de controle de humidade. Um pouco de sombra chega bem. Essas plantas, que aqui seriam orquídeas exóticas e lá são orquídeas nativas, sobrevivem com facilidade. Difícil mesmo é cultivá-las aqui…

Vejam bem: eu sou um jardineiro de mão-cheia! Basta vir ao meu terreno e ver que viçosos estão os meus cardos e urtigas…

Eu consulto frequentemente outros orquidófilos para tentar aprender. É-me útil perceber o que fazem e como fazem para cultivar plantas com que tenho pouca experiência ou onde não tenho obtido resultados tão bons como desejaria.

Para plantas menos conhecidas, e para as quais há pouca informação publicada, consulto também amigos ou contactos que vivem nas zonas de origem dessas espécies, para saber as condições em que crescem na Natureza. Mas não tento reproduzir as condições em que eles as cultivam nas suas estufas ou jardins. Isso não é relevante: eu quero cultivá-las em Portugal, não em Taiwan ou na Colômbia...

A informação que eu procuro só pode ser obtida junto de quem cultiva com bons resultados as espécies que eu quero cultivar em condições muito semelhantes àquelas que eu posso fornecer.

Que fique claro que eu sei que existem excelentes cultivadores em países tropicais, mas não é por alguém cultivar Cattleyas no Brasil ou Dendrobium na Tailândia que eu devo tentar imitar as suas técnicas.

É muito diferente cultivar orquídeas tropicais numa zona tropical e tentar cultivar orquídeas num clima temperado, a milhares de quilómetros de distância. São outros problemas, que exigem outras técnicas de cultivo.


As técnicas de cultivo

No Verão do ano passado, visitei o jardim botânico de Bona (que vale bem a visita!) e, entre muitas outras plantas, apreciei a colecção de plantas mediterrânicas que lá se cultivam.

Foi uma surpresa ver sobreiros adultos com vários metros de altura cultivados em vaso (de mais de 1,5 m de diâmetro), mas, pensando melhor, compreendi que, devido às diferenças climáticas, aquelas plantas que eu via no exterior em Setembro tinham de estar protegidas durante muitos meses em cada ano. Aqueles vasos, que pesam várias toneladas, são levados por um monta-cargas para uma estufa quando o frio aperta, e só voltam para o exterior na Primavera.

Enquanto nós podemos facilmente cultivar um sobreiro no quintal, a equipa daquele jardim botânico tinha sido obrigada a desenvolver técnicas que lhe permitissem conservar as plantas num clima muito diferente do da sua origem. O que nós fazemos aqui não seria suficiente.

As técnicas de cultivo evoluem para fazer face às dificuldades criadas pela diferença entre as condições em que a planta vive no seu habitat natural e aquelas que existem no sítio em que eu a quero cultivar. Se eu quero aprender a sério, devo procurar aqueles que cultivam bem as plantas que eu gostaria de ter em condições semelhantes às minhas.

É igualmente evidente que, aqui em Portugal, ninguém no seu perfeito juízo iria querer cultivar sobreiros adultos em vaso!

Ai, desculpem: há a malta dos Bonsai…

Só me meto em confusões…

 

Vale

2 comments:

  1. Ora, enquanto se der privilégio a fazer workshops por Brasileiros a " aprender a tratar as vossas orquídeas quando estão doentes" as coisas não vão mudar. Não seria preferivel fazê-los por pessoal de cá, que os há, que cultivam bem, com sucesso? Não seria preferivel " aprender a tratar delas para não ficarem doentes" ? 🤔 É só a minha opinião e vale o que vale ;-)

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  2. Tem toda a razão, já aprendi à minha custa...

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