Friday, July 28, 2017

Homenagem

Marcel Lecoufle


Em 1981, durante uma viagem de Interail, visitei pela primeira vez as estufas Orchidées Marcel Lecoufle, em Paris.
À entrada, duas plantas que até então só vira em fotografia, e para cujo impacto visual não estava preparado: Um Angraecum sesquipedale com quase 2 metros de envergadura de folha e meia dúzia de flores abertas ao mesmo tempo, e um Angraecum eburneum superbum ainda maior, com mais de uma dúzia de inflorescências de metro, cada uma com perto de uma dezena de flores.
Ainda hoje as vejo. 

Desde então, poucas foram as viagens a Paris que não incluíram a viagem de RER até Boissy-Saint-Léger, nos arredores de Paris, e o curto passeio desde a estação até às grandes estufas na Rue de Paris.
A última viagem, no fim de 2011, encontrou as estufas fechadas e um cartaz na porta principal

« Notre boutique et nos serres sont définitivement fermées. Nous vous remercions par avance pour votre compréhension et pour la confiance que vous nous avez témoignée pendant toutes ces années. »


As estufas de Marcel Lecoufle eram um labirinto onde cada bancada nos mostrava novas maravilhas e raridades. Tinha muitos funcionários, mas a presença permanente de Monsieur Marcel, da filha, Geneviève, e, mais tarde, da neta, Isabelle, tornavam a visita uma oportunidade de aprendizagem preciosa: ao contrário do que hoje frequentemente vemos, esta gente queria vender mas também ensinar, e ensinava mesmo, com uma cortesia e consideração que valeria a pena, hoje em dia, de imitar. Nunca faltou um sorriso.
Talvez ainda mais importante, só ensinavam o que sabiam, mas sabiam tanto...
Era um prazer dizer adeus ao dinheiro, e muitas terão sido as vezes em que, vindo de Paris, desembarquei na Portela com os famosos sacos de plástico com as letras verdes, ou, ainda melhor, com as caixas de cartão que eles preparavam com tanto cuidado e saber.



Marcel Lecoufle e Geneviève Bert
(na entrada das Orchidées Marcel Lecoufle)


Nascido ainda antes da Primeira Guerra Mundial, Marcel Lecoufle descendia de uma família de horticultores orquidófilos profissionais. Na sua busca de orquídeas para estudar e fotografar viajara por todo o Mundo, dando especial atenção à sua amada Madagascar e era O especialista em orquídeas malgaches em todo o Mundo. Era igualmente especialista em Bromeliaceae e plantas carnívoras, e sobre ambas publicou livros que são, até hoje, indispensáveis.

Presidente de Honra da Sociedade Francesa de Orquidofilia desde 1982, sempre mostrou prazer em acompanhar-me enquanto eu vagueava pelas estufas, esclarecendo, aconselhando, ensinando. Penso que achava graça àquele "miúdo" português que partilhava a sua paixão.

A morte da sua filha Geneviève em Julho de 2011 tinha-o afectado muito, e, já antes disso, a redução da rentabilidade do que era uma grande empresa e a pressão das companhias de "desenvolvimento" imobiliário sobre o que eram vastos terrenos de enorme valor tinham criado problemas na família. As Orchidées Marcel Lecoufle fecharam em 2011, ao fim de 63 anos de actividade. Marcel tinha 98 anos.

Marcel Lecoufle faleceu em meados de Dezembro do ano passado.
sit tibi terra levis

Para quem tenha ficado interessado em Marcel Lecoufle recomendo um video em que define a sua paixão pelas orquídeas:
https://www.youtube.com/watch?v=JT_k8KyObt0

Porquê?

Porque visitei recentemente um horto onde fui tratado de forma completamente inversa em relação à descrita acima e onde, por isso, me lembrei das minhas visitas a Boissy.

E porque, apesar de ter acabado com a colecção há trinta anos nunca perdi a paixão pelas orquídeas; regularmente, lá comprava mais esta ou aquela para experimentar na janela da cozinha ou da casa de banho. Matei tantas...

Hoje estive em arrumações e limpezas pela estufa e encontrei uma coisa que me levou a escrever este post:



Vale!


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