Tortura chinesa
O assunto que gostaria hoje de abordar é a qualidade de uma colecção de orquídeas. Sendo o tema um pouco provocatório, e podendo incomodar alguns de nós, peço-vos que acreditem que a minha intenção é boa (como todas as outras que enchem o caminho do Inferno).
A realidade é
que, por muito afortunados que sejamos, o nosso espaço de cultivo é sempre
finito, e a maioria de nós cultiva em espaços muito limitados. Isto limita o
número de plantas que podemos ter na colecção. Se ocuparmos o nosso espaço com
plantas medíocres, não teremos espaço para plantas boas…
Mas o que é uma colecção?
O conceito varia
com cada pessoa, mas podemos identificar desde já uma posição muito frequente: uma colecção é um conjunto de “coisas”. Uma
colecção de orquídeas é um conjunto de orquídeas. Ponto. Quem tem esta visão,
pensa também, por norma, que uma colecção é tanto melhor quando mais “coisas”
incluir. Uma colecção de 100 orquídeas é melhor que uma colecção de 50
orquídeas.
Não subscrevo
esta visão porque, para mim, uma colecção não é “um monte de coisas”, mas um
conjunto organizado de elementos ligados por uma (ou várias) características
comuns. Uma colecção, para mim, tem um tema.
Não quero com
isto dizer que uma colecção tem de ser restrita a um só género ou grupo de
géneros. Acharia interessantíssima uma colecção de, por exemplo, orquídeas do
grupo “Cattleya”, ou orquídeas do Brasil, ou do Sudeste asiático, ou até, porque
não? de orquídeas “que consigo cultivar no meu quintal”. Mas a colecção deve
ter um tema, uma “história”.
Quem tem amigos
filatelistas sabe que, com os milhões de selos que já foram editados, cada um
colecciona apenas um ou poucos temas: selos de Portugal, ou selos das Colónias,
ou selos com borboletas, blocos comemorativos, enfim…
O que é uma boa colecção?
Arrumada para já
a questão do tema, há outros critérios que têm de ser considerados, e, logo à
partida, entendamos o conflito entre quantidade e qualidade.
Que fique claro
que, para mim, uma “grande” colecção não se mede pelo número de vasos. Ter
duzentos ou quinhentos vasos de Cattleyas, ou Cymbidiums, ou Dendrobiums não
faz uma boa colecção. Vemos com frequência nas "colecções" de quem partilha esta visão
que muitos vasos são ocupados pelo mesmo híbrido ou espécie (o mais resistente, o que cresce e se propaga melhor…),
que as plantas estão sistematicamente em mau estado, roídas pelas pragas e crivadas
de doenças, e que há muitas variantes ou tipos importantes que não estão representadas.
Eu advogo que o
interesse de cada colecção reside na sua “história” (o tal tema ou temas) e na
qualidade de cada uma das plantas que a constituem. Quer tenhamos muito ou
pouco espaço podemos ter uma Grande colecção. Basta para isso que as plantas da
nossa colecção tenham uma razão para fazer parte dela, estejam bem cultivadas,
e sejam clones bons da espécie ou híbrido que representam.
Mas como se constrói
uma Boa colecção? Para isto precisamos de informação. Precisamos de saber, para
qualquer espécie ou híbrido que tenhamos decidido juntar à colecção, quais são
as características que definem uma planta “boa”. Precisamos de saber isto para,
ao olhar para uma planta que podemos adquirir, decidir se ela é boa, e
compramos, ou se é um clone medíocre, e esperamos que apareça um melhor.
Só assim
conseguimos evitar encher o nosso espaço de cultivo com plantas que não
prestam, ocupando o espaço e os recursos financeiros que seriam necessários
para comprar um clone muito bom, que faria a nossa colecção subir de nível.
Livrinhos, livrinhos… que faria eu sem eles!
O nome de Leopold
Sacher-Masoch ficou famoso por ter sido utilizado como base para a palavra
“masoquismo”, a busca do prazer pelo sofrimento. Deixando de lado as expressões
mais cabeludas da coisa, vejo-me obrigado a concluir que, mesmo nunca o tendo
suspeitado, também sofro deste problema.
Vem este assunto
à conversa pela enorme satisfação que tive quando, recentemente, e com a ajuda
preciosa de uma amiga Taiwanesa, consegui gradualmente adquirir, no mercado taiwanês
de livros usados, um conjunto livros editados em Taiwan com o singelo título “Paphiopedilum
in Taiwan”. Os livros são editados pela Taiwan Paphiopedilum Society,
fundada há mais de 20 anos, e mostram as plantas que vão sendo expostas nas
reuniões da sociedade. Têm sido publicados vários volumes, e a série já vai no Paphiopedilum
in Taiwan VI.
Não consegui o primeiro, editado há muitos anos e ainda a preto e branco, mas se aparecer algum, não me escapa!
São livros de excelente qualidade, em formato ligeiramente maior que A4, cerca de 160 páginas e capas rígidas, todos a côres. O texto é em Mandarim (o que, para mim, é Chinês) mas as fotografias, apesar de relativamente pequenas, são a côres, e às centenas em cada volume. As legendas das fotografias incluem o nome da espécie ou do híbrido (e seus progenitores) em caracteres ocidentais, pelo que é simples identificar cada planta. Também incluem as dimensões de cada segmento da flôr e o nome do hibridista que expôs a planta. As fotografias são todas tiradas pela Sociedade nas suas exposições, o que evita as tentações de malabarismos com o Photoshop.
Para além destes
seis volumes foram também já editados dois volumes ainda mais horríveis: não as
plantas que foram expostas, mas apenas aquelas que foram premiadas… Páginas e
páginas de fotografias do melhor que os hibridistas taiwaneses conseguiram
produzir!
Vejam bem o meu
sofrimento: Taiwan é, hoje, o centro mundial do cultivo, selecção, line
breeding e hibridação de Paphiopedilum, e um entusiasta do género,
ao ver todas aquelas plantas espantosas, sente-se como um guloso esfomeado
amarrado à parte de fora da montra de uma pastelaria!
Nenhum viveirista consegue obter boas plantas sem bons progenitores, e os Taiwaneses são mestres em procurar e seleccionar clones excepcionais de cada espécie para usar nos seus programas de line breeding ou hibridação. As fotos nos livros não mostram apenas a descendência de cada cruzamento, mas também os seus extraordinários progenitores.
Não comprei
aqueles livros para me sentir infeliz ou invejoso, mas para ver como são os
melhores Paphs que hoje se produzem. Este conhecimento ajudar-me-á a avaliar as
plantas da minha colecção, a ver quais são boas e quais são fraquinhas (ou
más…) e a decidir em que direcção devo orientar as minhas próximas compras.
Olhar para, por vezes, páginas inteiras de clones seleccionados da mesma espécie ou de frutos de um mesmo cruzamento ensina-nos muito: mesmo nesta situação, em que são apenas plantas expostas por profissionais e grandes entusiastas, e onde, portanto, não aparecem os clones medíocres, aprendemos o quanto pode variar uma espécie ou híbrido.
Os livros de plantas premiadas mostram-nos como os verdadeiros especialistas avaliam a qualidade de cada clone: é muito enriquecedor tentar perceber porque é que a este clone foi dada uma medalha de prata, enquanto àquele foi dada a medalha de ouro.
Finalmente, estes livros mostram-nos o futuro: as plantas provenientes das novas linhas de hibridação. Para as nossas colecções, e para a gestão das nossas compras, é completamente diferente eu saber ou não reconhecer o que são os novos híbridos quando eles começarem a aparecer no mercado.
Dizia o masoquista: Bate-me! Bate-me!
Respondia o
sádico: Não...











Parabéns pelos textos talvez com temas diferentes mas que se completam. Finalmente alguém com mais jeito para a escrita que eu fala do tema que eu sempre defendi com "unhas e dentes" mas......... Espero que finalmente "faça escola" e que percebam a diferença por ex. entre uma walkeriana made by walkeriana & Cia e uma walkeriana comprada na EU ou um Amigo retirou lá da árvore na chacara dele lá no Brasil.
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