Thursday, November 26, 2020

 

Regresso


Em princípios de 2020, quem sabe se aborrecida pela monotonia da sua rotação, a Terra bocejou e sacudiu-se como um cão molhado, mas, observando o que a rodeava e não gostando das alternativas, lá se resignou: acomodou-se de novo ao seu amado eixo e lá voltou a girar paulatinamente, como há já tempos fazia.

Não era a primeira vez que isto acontecia, mas, nesse momento, o Mundo mudou para nós.

Estou convicto de que no futuro muito será como dantes, mas muito terá também mudado ou virá ainda a mudar.

Mais para uns do que para outros, mas para todos, a pandemia é uma ameaça existencial, uma nova forma de morrer e matar num Mundo em que as opções para isso já não faltavam, e as medidas que todos temos de tomar para reduzir a nova ameaça são facas apontadas aos nossos eus mais profundos. Não voltaremos a ser exatamente o que éramos.

Portugueses, Espanhóis, Italianos, Mediterrânicos na generalidade, sofreremos particularmente o impacto das indispensáveis estratégias de distanciamento social.

Trabalhei a maior parte da vida em empresas multinacionais, e, nas reuniões internacionais, nada aborrecia mais os meus colegas do Norte da Europa do que a diferença, para eles inexplicável, nos processos de tomada de decisões. Enquanto Alemães, nórdicos, Holandeses, discutiam e decidiam na sala de reuniões, os Mediterrânicos deixavam a decisão para a mesa do restaurante, depois de uma bem regada refeição.

Esta busca da proximidade e do convívio presencial é muito nossa, e nós somos muito ela. Aproximamos as cabeças quando temos alguma coisa mais importante para dizer. Beijamo-nos, abraçamo-nos, cumprimentamo-nos. Vivemos do contacto com o interlocutor, e procuramos o contacto físico.

Para mim, privilegiado por não morar num andar e poder vir ao exterior quando me apetece, é, em todo este processo, o que mais me custa: sinto de forma aguda a falta de oportunidades de convívio e a proximidade física com os meus amigos e conhecidos. Sou um ser profundamente sensual…

Sei que as consequências económicas da pandemia e das medidas de contenção necessárias provocaram em muitos de nós um sofrimento atroz, mas confesso que o que mais me faz sofrer é esta forma de solidão.

A tecnologia não resolve o problema, mas, de algum modo, pode mitigá-lo. Até na esterqueira em que se tornaram as redes ditas sociais podemos encontrar oportunidades para interacção, mas mesmo aí noto uma tendência para o afastamento entre aqueles que antes mais participavam.

Os orquidófilos portugueses comunicavam entre si com regularidade, não apenas nas exposições principais e workshops e encontros regulares de menor dimensão, como através dos diferentes grupos no Facebook. Numa altura em que, por razões evidentes, as reuniões presenciais estão suspensas, foi uma grande surpresa ver uma redução marcada da participação na net. Estamo-nos a isolar.

Foi tudo isto que me levou a tentar reactivar o Blog que antes mantive. As minhas elucubrações podem não interessar a muita gente, mas, se a sua partilha me ajudar a manter contactos, então vale a pena!

Tentarei publicar com maior frequência que no passado, e solicito as vossas opiniões sobre o que aqui irá aparecendo.

Fiquem bem!

Vale!

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