Regresso
Em princípios de
2020, quem sabe se aborrecida pela monotonia da sua rotação, a Terra bocejou e
sacudiu-se como um cão molhado, mas, observando o que a rodeava e não gostando
das alternativas, lá se resignou: acomodou-se de novo ao seu amado eixo e lá voltou
a girar paulatinamente, como há já tempos fazia.
Não era a
primeira vez que isto acontecia, mas, nesse momento, o Mundo mudou para nós.
Estou convicto de
que no futuro muito será como dantes, mas muito terá também mudado ou virá
ainda a mudar.
Mais para uns do
que para outros, mas para todos, a pandemia é uma ameaça existencial, uma nova
forma de morrer e matar num Mundo em que as opções para isso já não faltavam, e
as medidas que todos temos de tomar para reduzir a nova ameaça são facas
apontadas aos nossos eus mais profundos. Não voltaremos a ser exatamente o que
éramos.
Portugueses,
Espanhóis, Italianos, Mediterrânicos na generalidade, sofreremos
particularmente o impacto das indispensáveis estratégias de distanciamento
social.
Trabalhei a maior
parte da vida em empresas multinacionais, e, nas reuniões internacionais, nada
aborrecia mais os meus colegas do Norte da Europa do que a diferença, para eles
inexplicável, nos processos de tomada de decisões. Enquanto Alemães, nórdicos,
Holandeses, discutiam e decidiam na sala de reuniões, os Mediterrânicos
deixavam a decisão para a mesa do restaurante, depois de uma bem regada
refeição.
Esta busca da
proximidade e do convívio presencial é muito nossa, e nós somos muito ela.
Aproximamos as cabeças quando temos alguma coisa mais importante para dizer.
Beijamo-nos, abraçamo-nos, cumprimentamo-nos. Vivemos do contacto com o
interlocutor, e procuramos o contacto físico.
Para mim,
privilegiado por não morar num andar e poder vir ao exterior quando me apetece,
é, em todo este processo, o que mais me custa: sinto de forma aguda a falta de
oportunidades de convívio e a proximidade física com os meus amigos e
conhecidos. Sou um ser profundamente sensual…
Sei que as
consequências económicas da pandemia e das medidas de contenção necessárias
provocaram em muitos de nós um sofrimento atroz, mas confesso que o que mais me
faz sofrer é esta forma de solidão.
A tecnologia não
resolve o problema, mas, de algum modo, pode mitigá-lo. Até na esterqueira em
que se tornaram as redes ditas sociais podemos encontrar oportunidades para
interacção, mas mesmo aí noto uma tendência para o afastamento entre aqueles
que antes mais participavam.
Os orquidófilos
portugueses comunicavam entre si com regularidade, não apenas nas exposições
principais e workshops e encontros regulares de menor dimensão, como através
dos diferentes grupos no Facebook. Numa altura em que, por razões evidentes, as
reuniões presenciais estão suspensas, foi uma grande surpresa ver uma redução
marcada da participação na net. Estamo-nos a isolar.
Foi tudo isto que
me levou a tentar reactivar o Blog que antes mantive. As minhas elucubrações
podem não interessar a muita gente, mas, se a sua partilha me ajudar a manter
contactos, então vale a pena!
Tentarei publicar
com maior frequência que no passado, e solicito as vossas opiniões sobre o que
aqui irá aparecendo.
Fiquem bem!
Vale!
Boa iniciativa, vou estar atento às suas publicações.
ReplyDeleteParabéns!
🖤
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